Quando a vacinação deve começar a frear a pandemia no Brasil
Estêvão Bertoni
25 de março de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h03)Levantamento calcula impacto da campanha nacional de imunização. Pesquisadores defendem lockdown imediato para desafogar hospitais
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Idosa recebe vacina contra a covid-19 dentro do carro, em São Paulo
Caso os laboratórios brasileiros da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e do Instituto Butantan consigam entregar a produção máxima de vacinas contra a covid-19 previstas em seus cronogramas, o Brasil deve vacinar todos os profissionais de saúde e os idosos acima dos 60 anos ainda em abril. Cerca de um mês depois, a imunização deve começar a ter um efeito expressivo sobre o número de mortes, ajudando a desafogar os hospitais.
Dos atuais 2.300 óbitos por dia, a média móvel no país deve ficar abaixo de mil mortes diárias ainda em maio, graças à vacinação. A estimativa consta de um estudo da Impulso Gov , uma organização não governamental que tem como objetivo ajudar estados e municípios a coletar e a analisar dados dos serviços de saúde.
No estudo, usado pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) para defender a adoção de um lockdown nacional para frear os casos antes do efeito da imunização, a ONG recorreu a 12 bases de dados públicas e informações do Ministério da Saúde obtidas por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação). A partir disso, traçou três possíveis cenários da vacinação no país.
“A gente estimou o número de pessoas em cada grupo prioritário, sabe quantas doses precisa e quantas doses vai ter em cada mês. A partir disso, a gente distribui as doses pelos grupos. Por esse cenário que conta apenas com a produção nacional, a gente deve conseguir vacinar até o final de abril todos os idosos acima de 60, que já é uma parte da população com ao menos uma comorbidade. A gente começaria a ter um efeito [no número de mortes] no final de maio”, disse ao Nexo o coordenador de dados da Impulso Gov, Marco Brancher.
O plano de imunização contra a covid-19 do governo federal considera 29 grupos como sendo prioritários na fila da vacinação, como idosos, profissionais de saúde, indígenas, quilombolas, professores, militares e caminhoneiros. Ao todo, segundo o governo federal, são 77,2 milhões de pessoas. O estudo eliminou a duplicidade, ou seja, incluiu na relação apenas uma vez um idoso que é ao mesmo tempo professor, por exemplo. Por isso, considerou 73,7 milhões de pessoas na estimativa.
Com o cronograma do Ministério da Saúde
O plano de vacinação federal prevê a distribuição para estados e municípios de 562 milhões de doses ao longo de 2021, o suficiente para vacinar toda a população de 210 milhões de habitantes. Entre as opções, estão as vacinas da Pfizer/BioNTech, Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson, a única que necessita de apenas uma dose), a Sputnik V, a Covaxin (da indiana Bharat Biotech), além de doses recebidas pelo consórcio Covax Facility e as de Oxford importadas da Índia. Mas muitas dessas vacinas não têm aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e apenas em março, o governo mudou seis vezes o cronograma . Devido ao alto risco de atraso nos contratos, negociações e importações, pela alta demanda global, o estudo considera o cenário improvável, e por isso não discute as metas. “O mais provável é que nos próximos meses tenhamos um cronograma de vacinação consideravelmente mais lento do que o previsto pelo Ministério da Saúde, por falta de doses (não por capacidade de distribuir e vacinar)”, diz o estudo.
Com as doses produzidas no país
Desde março, o país conta com as doses da vacina de Oxford em parceria com a AstraZeneca, produzida no Brasil pela Fiocruz. Elas se somam às doses da Coronavac disponibilizadas pelo Instituto Butantan, que respondiam por 83% de todas as vacinas entregues aos estados até quinta-feira (25). Caso os laboratórios nacionais cumpram o cronograma, as 39 milhões de doses entregues em abril seriam suficientes para vacinar todos os profissionais de saúde e idosos acima de 60 anos, segundo o estudo, que considera esse o cenário mais provável. Caso só essas doses estejam acessíveis, todos os adultos seriam vacinados apenas em dezembro.
Com metade da produção nacional
O estudo também traça um cenário mais conservador, em que apenas metade da produção nacional seria entregue. Mesmo assim, a cobertura atingiria as populações mais vulneráveis em alguns meses. Os idosos acima de 60 anos e profissionais de saúde seriam imunizados até junho, e toda a população adulta só receberia as duas doses em 2022.
Segundo o estudo, vacinar a população acima dos 60 anos já teria impacto porque, no Brasil, cerca de 70% das mortes por covid-19 acontecem entre idosos, mesmo que em março, em algumas regiões, os jovens sejam metade dos internados pela doença.
“A gente não precisa atingir a imunidade de rebanho para começar a ver quedas de óbitos. A população vacinada não é imune ao vírus, ela pode contrair e transmitir, mas só vai ter os efeitos mais leves da doença. Então, provavelmente, essa pessoa não vai ser internada e, quase com certeza, não vai morrer. A gente não tem registro de nenhum óbito por covid de pessoas vacinadas ainda”
Mesmo no pior cenário (Fiocruz e Butantan entregam apenas metade da produção), em maio, a média móvel (que considera os sete dias anteriores ao cálculo) de mortes deve ficar abaixo de mil óbitos por dia. No final de março, ela era de 2.300 mortes diárias no Brasil.
370 mil
mortes por covid-19 serão evitadas no Brasil até o final de 2021 devido à vacinação no pior cenário, com metade da produção nacional, segundo o estudo da Impulso Gov
O estudo considera ainda que, caso a redução de mortes seja homogênea em todos os municípios do país, a pressão sobre o SUS (Sistema Único de Saúde) deve ser menor em abril em comparação ao mês anterior. Para os pesquisadores, porém, até que se chegue a esse quadro, é necessário que os governos tomem medidas mais duras de restrição de circulação de pessoas.
Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo na quinta-feira (25) por João Moraes Abreu, diretor executivo da Impulso Gov, Marco Brancher, coordenador de dados da ONG, Carlos Lula, presidente do Conass e secretário de Saúde do Maranhão, e Marcia Castro, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, os autores defendem que um lockdown seja adotado imediatamente no país, por 30 dias, até para garantir os efeitos da vacinação.
O lockdown implica no fechamento das atividades não essenciais e no confinamento da população, que só pode sair de casa com justificativas como ir ao hospital ou à farmácia. É um modelo pouco adotado no Brasil.
Segundo os autores, caso a transmissão do vírus não seja controlada, há o risco de novas variantes mais transmissíveis do vírus surgirem, como já ocorreu em Manaus. Essas variantes podem escapar da proteção garantida pelas vacinas atualmente em uso. O número descontrolado de casos também manteria os hospitais em colapso, impedindo o atendimento até mesmo de pessoas com problemas além da covid-19, o que pode aumentar ainda mais o número de mortes.
Os autores escrevem ainda que, quanto mais a curva de mortes sobe, mais difícil fica para baixá-la. “Já atingimos 3.000 óbitos em um único dia. Se este número não cair já, não ficaremos abaixo de 1.000 óbitos nem em maio, mesmo com a vacinação”, escrevem. Para eles, mesmo uma média móvel abaixo de mil mortes ainda é um número inaceitável.
“Se a gente olhar para qualquer país que implementou medidas mais rígidas desde o começo da pandemia, como Portugal, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, todos eles tiveram políticas públicas voltadas para atender as pessoas que estavam ficando desamparadas, seja por programas de renda mínima emergencial, de crédito para empresas ou de isenção de impostos. Tem um menu disponível. Se a gente não tiver nenhuma medida econômica , a gente sabe que, por mais que seja absolutamente necessário adotar o lockdown, ele acaba sendo inviável na prática”, afirmou Brancher.
Pesquisadores como o neurocientista Miguel Nicolelis, que coordenou o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a covid-19, estimam que o Brasil pode alcançar 500 mil mortes em julho caso medidas restritivas não sejam adotadas imediatamente. Brancher diz que o cenário é possível se os índices de mobilidade continuarem no patamar de março. “Não sei se até o meio do ano, mas com certeza até o final do ano é bem possível que a gente atinja esse número espantoso”, afirmou.
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