Expresso

Qual o papel dos testes após mais de um ano de pandemia

Estêvão Bertoni

13 de junho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h11)

Brasil continua sendo um dos países que menos monitora circulação da covid. Ao 'Nexo', especialistas falam sobre o uso de exames no nível individual e como política pública

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FOTO: AMANDA PEROBELLI/REUTERS – 29.07.2021

Uma mulher negra, de máscara de proteção, está sentada e estende o dedo para uma profissional da saúde, também de máscara e touca. Há uma fila de outras pessoas atrás das duas

Mulher faz teste sorológico no quilombo de Peropava, na cidade de Registro, São Paulo

O Brasil é um dos países que menos realiza testes para a covid-19 proporcionalmente à sua população, segundo o site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford. Na lanterna entre mais de 100 nações, o país fica atrás dos vizinhos Argentina, Chile e Uruguai. A incidência de exames aplicados no Brasil é de 8.710 por 100 mil habitantes, segundo boletim de junho do Ministério da Saúde. Como comparação, no Reino Unido, todos os moradores podem fazer dois testes por semana.

A testagem seguida de isolamento de doentes, rastreamento de contatos e quarentenas é uma das principais estratégias recomendadas pela Organização Mundial de Saúde para o controle da covid-19 desde o início da pandemia, mas nunca foi colocada em prática de maneira organizada no Brasil. No final de novembro de 2020, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que 6,9 milhões de testes comprados pelo governo federal estavam encalhados no aeroporto de Guarulhos perto do prazo de validade — que foi estendido após a denúncia. Com mais de um ano de crise sanitária, o Ministério da Saúde ainda promete um amplo programa de testagem.

A seguir, o Nexo mostra como funcionam os tipos mais comuns de testes, como tem sido a estratégia de testagem do governo federal ao longo da pandemia e quais as orientações de especialistas para o uso individual dos exames.

Como os testes funcionam

Detecção direta

Identifica se há vírus no organismo no momento do exame. O teste desse tipo considerado padrão-ouro é o PCR ou RT-PCR, também chamado de molecular. É feito a partir de amostras de secreções do nariz ou da garganta coletadas por uma espécie de cotonete (swab). Na amostra, a fita simples de RNA do vírus é transformada por enzimas numa dupla fita de DNA, que é amplificado bilhões de vezes numa máquina com ciclos de mudança de temperatura. O material genético do vírus é identificado por emissão de luz. Opção mais simples, embora menos sensível, é o teste rápido de antígeno. Ele aponta a presença do vírus ao detectar sua proteína. Também é feito por meio de um swab inserido no nariz. O cotonete é colocado num tubo, que é espremido para fornecer o máximo de líquido possível. Três gotas são colocadas num dispositivo que mostra o resultado 15 minutos depois.

Detecção indireta

Identifica se há anticorpos que foram produzidos no organismo para combater o vírus. Os chamados testes sorológicos mostram a partir de uma amostra de sangue se a pessoa já se infectou no passado. São dois os tipos de anticorpos: o IgM, que é uma resposta inicial, e o IgG, que gradualmente vai substituindo o primeiro. É o segundo anticorpo que, em tese, cria imunidade duradoura. Como essa proteção natural do organismo leva cerca de 15 dias para se formar, o uso do teste rápido é indicado a partir do décimo dia após o início dos sintomas.

O programa de testagem no Brasil

Desde o início da pandemia, o Ministério da Saúde gastou R$ 1,3 bilhão para distribuir a estados e municípios 32,5 milhões de testes de covid-19, sendo que cerca de 64% deles foi do tipo PCR.

A estratégia, porém, é alvo de críticas devido aos problemas de logística não solucionados pelo governo federal. Como precisam ser processados em laboratórios, os testes PCR podem levar mais tempo para apontar se a pessoa está doente ou não, caso não haja um planejamento que agilize o processamento dos exames.

No começo de junho, a infectologista Luana Araújo, indicada para comandar uma secretaria de combate à covid-19 no Ministério da Saúde, mas barrada antes de assumir o cargo por se opor ao uso de remédios ineficazes no tratamento à doença, disse à CPI da Covid no Senado que o país não conseguiu executar a estratégia.

“Pelo tamanho do nosso país e pelas dificuldades técnicas de realização de um teste que precisa de uma estrutura laboratorial grande e complexa, leva muito tempo pra gente ter o resultado desse teste. Então, na hora em que o paciente recebe de volta esse resultado, a gente já perdeu a oportunidade de interrupção da cadeia de transmissão da doença, que é o que a gente precisa hoje”

Luana Araújo

infectologista, durante depoimento à CPI da Covid

Segundo ela, o Ministério da Saúde planejava uma mudança de rumos no programa, utilizando o teste rápido de antígeno. O ministro Marcelo Queiroga confirmou à CPI da Covid, uma semana depois, que o governo já havia pactuado com os secretários estaduais e municipais de Saúde de todo o país uma grande campanha de testagem.

“No momento atual, nós temos testes chamados testes rápidos de antígeno, e esse teste rápido de antígeno permite não só a identificação dos pacientes que são contaminados, mas também o adequado tratamento, como, por exemplo, o isolamento desses pacientes, bem como o dos seus contactantes”

Marcelo Queiroga

ministro da Saúde, em depoimento à CPI da Covid

Segundo ele, até o início de junho já haviam sido distribuídos 3 milhões de testes de antígenos a estados e municípios. A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), de acordo com Queiroga, já produz exames do tipo e é uma das fornecedoras do ministério.

A viabilidade da estratégia

Para o médico Carlos Eduardo dos Santos Ferreira, que preside a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, uma campanha de testagem na fase atual da pandemia no Brasil, com um número ainda alto de casos, é válida se conseguir identificar rapidamente os doentes e isolá-los para interromper a cadeia de transmissão.

A vantagem do teste rápido de antígeno, de acordo com o médico, é que ele é mais barato e acessível. “Você compra um kit que não precisa de máquina. É o próprio kit que processa o teste em qualquer parte do país, em qualquer laboratório”, disse ao Nexo . Ele lembra, porém, que o processamento de testes PCRs também ficou mais fácil ao longo da pandemia porque foram criadas máquinas menores que podem ser compradas por laboratórios sem estrutura para processar os exames no modo “manual”.

“Quando começou a pandemia, eram seis ou sete laboratórios no país que tinham capacidade de executar o PCR para a covid. Depois que chegaram essas maquininhas menores para PCR rápido, você já consegue fazer em outros lugares”, afirmou.

O professor André Schwambach Vieira, do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), concorda que é possível fazer um programa de testagem com o PCR. “Não é um teste para demorar tanto tempo. No laboratório que a gente organizou, o resultado sai, em média, oito horas após receber as amostras”, disse ao Nexo .

Para ele, o problema não é o teste em si, mas a falta de organização para implementar a estratégia baseada no exame.

“Faltou uma coordenação federal para organizar os vários centros de testagem e um dimensionamento adequado da organização de estruturas que pudessem usar esses insumos. Tanto é que o governo federal teve um monte de teste que venceu no aeroporto de Guarulhos. Conseguiu comprar, mas não conseguiu usar”

André Schwambach Vieira

professor do Instituto de Biologia da Unicamp

Segundo ele, um exemplo de organização é o dos Estados Unidos, que conseguiram processar milhões de testes PCR por dia. “O Brasil ainda tem uma carência muito grande nessa área”, disse. Em maio de 2021, por exemplo, os EUA aplicaram 15 vezes mais testes do que o Brasil.

Vieira afirma que uma campanha que use o teste rápido de antígeno pode ser útil se for rápida e permitir fazer rastreio de contato e o isolamento dos pacientes. Mas ele diz considerar que o ideal é ter as duas coisas: testes rápidos e PCR. Se um falhar, o outro pode detectar a doença, dependendo da situação. “No final das contas, a melhor estratégia é testar muito e testar de várias formas”, disse.

O uso individual dos testes

Sem uma estratégia pública de monitoramento, tornou-se comum o uso individual dos testes, que podem ser feitos em farmácias e outros estabelecimentos ou oferecidos por planos de saúde. Além de usados por pessoas com suspeita de contágio, testes são disponibilizados por empresas para funcionários e exigidos em viagens internacionais ou para outros destinos turísticos.

Segundo especialistas, ao desconfiar da infecção pelo novo coronavírus, uma pessoa que decida fazer um teste de covid-19 precisará levar em consideração em qual fase da doença está para escolher o tipo de teste.

Se a pessoa acredita ter sido exposta ao vírus um ou dois dias antes e estiver assintomática, o teste PCR é o mais sensível para detectar a doença, segundo o professor André Vieira, da Unicamp. O exame é, porém, mais preciso a partir do terceiro dia de sintomas.

Se os sintomas já se manifestaram, tanto o PCR quanto o teste de antígeno são opções. “Diria que é quase igual a sensibilidade, mas o teste PCR é mais sensível”, afirmou.

Carlos Eduardo dos Santos Ferreira, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, diz que o teste de antígeno funciona bem para identificar quem está com o quadro bem agudo da doença. “Se o teste der positivo, é positivo mesmo. O paciente está com a doença e está transmitindo bastante o vírus”, disse.

Segundo ele, há casos de pessoas que se infectaram, se isolaram por 14 dias, mas mesmo assim o PCR continua dando positivo — o que pode continuar acontecendo dois ou três meses após a infecção por causa de resquícios do vírus no organismo, mesmo que a pessoa não transmita mais a doença. “Se você fizer um antígeno nessa pessoa, seu antígeno é negativo. O antígeno fica positivo só naquela fase maior de replicação do vírus”, afirmou.

Já os testes sorológicos não funcionam na fase aguda. Mas podem ser úteis, segundo Ferreira, para pessoas que tiveram sintomas de covid-19, acometimento pulmonar, perderam olfato e paladar, e mesmo assim o PCR falhou. “Tem alguns casos que o PCR não pega. Aí pode usar o teste sorológico para ajudar no diagnóstico. Tem que ser em torno de 21 dias após o início dos sintomas, mas a partir do décimo dia já pode ser usado”, disse.

Segundo os especialistas, fazer um teste sorológico após tomar a vacina contra a covid-19 para ver se o organismo produziu anticorpos não é indicado. O motivo: não há o que fazer com a informação. Caso o resultado seja negativo, não existe a possibilidade, ainda, de a pessoa tomar uma terceira dose da vacina na tentativa de aumentar a proteção.

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