Por que a China entra em 2022 insistindo na política da ‘covid zero’
Estêvão Bertoni
30 de dezembro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h35)Com proximidade de Jogos de Inverno, em fevereiro, país volta a confinar milhares de pessoas devido ao aparecimento de surtos da doença
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Mulher passa por teste contra a covid-19 em cidade próxima a Xian, na China
A pouco mais de um mês dos Jogos de Inverno, em Pequim, a China voltou a endurecer as restrições à circulação de pessoas em cidades da região norte para tentar conter novos surtos de covid-19. Diferentemente do resto do mundo, que tenta conviver com a doença, o país é o último a manter a política de “covid zero”, que consiste na adoção de regras rígidas de entrada de viajantes, testagem e lockdowns para cortar a transmissão do vírus logo que surgem novos infectados.
Às vésperas do Natal, na quinta-feira (23), os 13 milhões de habitantes da cidade de Xian , no norte do país, deram início a um confinamento rigoroso depois da detecção de pouco mais de 100 casos de covid-19 na região — no mesmo dia, por exemplo, os Estados Unidos registraram 180 mil casos, mais do que a China em toda a pandemia. Na terça-feira (28), o lockdown foi estendido para Yanan, cidade vizinha. Todas as atividades não essenciais foram suspensas, e apenas uma pessoa de cada casa poderia sair a cada dois dias para fazer compras.
Neste texto, o Nexo mostra por que a China tem optado por uma política de tolerância zero na contenção do vírus e como o aparecimento de novas variantes pode levar o país a manter a estratégia por um longo período, ao contrário do que vem ocorrendo em países como Nova Zelândia, Austrália e Cingapura, que abandonaram a ideia.
O novo coronavírus foi identificado pela primeira vez na cidade Wuhan, na China, no final de 2019, e logo se espalhou para o resto do mundo. Desde então, o governo chinês impõe regras rígidas para evitar uma explosão de infecções. O país tem cerca de 1,4 bilhão de habitantes.
Em 22 de dezembro, por exemplo, uma cidade de 200 mil habitantes na fronteira com o Vietnã foi colocada em confinamento após o surgimento de um único caso de covid-19. Cerca de 6.000 caminhões que transportavam carga para o local foram barrados na fronteira do país.
Um único caso também levou as autoridades chinesas a fecharem no final de outubro o parque de diversões da Disneylândia , em Xangai, com os visitantes dentro, até que todos os presentes fossem testados. Após a realização de 34 mil exames, feitos madrugada adentro, todos foram liberados depois que os resultados não apontaram nenhuma infecção.
Também em outubro, a cidade de Lanzhou, com 4 milhões de moradores, entrou em lockdown poucos dias depois de as autoridades registrarem 29 casos de transmissão comunitária. Em Xian, a cidade de 13 milhões de habitantes que entrou em confinamento em dezembro, todos os moradores são obrigados a se testar contra a covid-19 — a testagem começou na segunda-feira (27), com 6,4 milhões de exames realizados num único dia.
O confinamento da população geralmente leva ao aumento de pedidos de comida por meio dos serviços sociais chineses, além de denúncias, nas redes sociais locais, de que pessoas estão prestes a morrer de fome por serem obrigadas a se trancar em casa sem condições para tal. No início de novembro, o governo chinês chegou a pedir à população que estocasse suprimentos e que as autoridades garantissem o abastecimento de alimentos.
Além das restrições de circulação, o governo chinês também dificultou a entrada de visitantes e barrou o turismo no país. Os chineses são desestimulados a viajar para fora. A cidade de Ruili, no sudoeste da China, chegou a ser fechada quatro vezes (uma delas por 26 dias seguidos) até novembro de 2021, e muitos moradores que dependiam do turismo ficaram sem renda .
Cenas de punições para quem descumpre as medidas também têm se tornado comuns, apesar do protesto de parte da sociedade chinesa contra essas ações. Na terça-feira (28), um jornal estatal divulgou um vídeo de quatro moradores de Jingxi, na fronteira com o Vietnã, sendo obrigados a desfilar pelas ruas com cartazes com seus nomes e fotos. Eles foram acusados de transportar migrantes do país vizinho para a China, violando as regras de fechamento das fronteiras. A humilhação pública de criminosos está proibida no país desde 2010.
Em entrevista ao jornal americano The New York Times, em junho, o gerente sênior de políticas e comunicações da Câmara de Comércio da União Europeia na China, afirmou que a política chinesa de combate ao vírus tem imposto um “cansaço cada vez maior”, ainda mais aos estrangeiros que vivem no país e escolhem não sair para visitar familiares devido à dificuldade que encontram para voltar.
O rigor do governo, porém, tem mantido o vírus sob controle. Especialistas chineses concordam que a política de tolerância zero é de difícil aplicação, mas a defendem. “O custo atual de adotar a política de ‘transmissão zero’ é realmente alto, mas iria custar muito mais se abríssemos [o país] e vivêssemos com o vírus”, afirmou o epidemiologista Zhong Nanshan, da Universidade de Medicina de Guangzhou, em entrevista de novembro a um canal de TV estatal.
Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a China registrou desde o começo da pandemia 131 mil casos e apenas 5.699 mortes. O Brasil, que tem seis vezes menos habitantes, já teve 2,2 milhões de casos e mais de 618 mil mortes pela doença.
A preocupação das autoridades chinesas, que levou ao endurecimento das regras em dezembro, se deveu ao fato de que o país registrou quatro dias consecutivos de aumento nos casos e, na terça-feira (28), chegou a 200 novos registros de infecção em 24 horas, número que não era observado desde maio de 2020.
A realização dos Jogos de Inverno, entre 4 e 20 fevereiro de 2022, é apontada como um dos motivos para a manutenção do rigor. Em entrevista à agência de notícias alemã Deutsche Welle, no início de novembro, o professor de saúde pública Chen Xi, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, afirmou que um surto ocorrido no país após um feriado nacional de uma semana fez as autoridades se preocuparem ainda mais com a doença, o que levou à decisão de manter as fronteiras fechadas para a situação não piorar.
“Não acredito que a China flexibilizará as medidas de saúde pública antes dos Jogos Olímpicos de Inverno”, afirmou. Em setembro, o país anunciou que visitantes não poderiam entrar para assistir aos jogos, que serão realizados apenas com público local. A recomendação é que a torcida apenas aplauda os eventos, e não grite em apoio aos atletas, já que o vírus se transmite por aerossóis que ficam suspensos no ar.
Além disso, será permitida apenas a entrada de esportistas e equipes que tenham se vacinado. Funcionários que irão trabalhar durante os jogos não poderão deixar as instalações. Testes do tipo PCR serão feitos diariamente em todos os envolvidos. E todos que deixarem o evento para ir a outras regiões da China precisarão fazer uma semana de quarentena seguida de outras duas de isolamento em casa.
Além dos jogos, a realização do Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, em outubro, é vista como outro motivo para a manutenção das regras rígidas até lá. O congresso, realizado a cada cinco anos, é o evento político mais importante do país. Nele, é escolhido o próximo secretário-geral do partido — o presidente chinês é escolhido no Congresso Nacional Popular, realizado meses depois. Também há renovação de grande parte das lideranças políticas, que ocuparão cargos importantes na administração pública.
Dados da OMS mostram que a China já havia aplicado 2,7 bilhões de doses de vacinas contra a covid-19 até o final de dezembro, e mais de 80% da população estava totalmente vacinada contra a doença — o que inclui crianças. Mesmo assim o país não se abre, e uma das explicações está nas vacinas usadas pelo governo.
A China conta apenas com os próprios imunizantes da Sinopharm e da Sinovac, além da Convidecia, da CanSino. As duas primeiras apresentaram taxa de eficácia nos estudos clínicos de 79% e 51%, respectivamente. A terceira delas teve uma taxa de 57%.
Tanto a vacina da Sinopharm quanto a da Sinovac (Coronavac, produzida no Brasil pelo Instituto Butantan), as duas mais usadas na China, são consideradas tradicionais e usam o próprio coronavírus “morto” em sua formulação. A da CanSino recorre a um adenovírus modificado com o material genético do Sars-CoV-2, o vírus causador da covid-19, e é de dose única, a exemplo da vacina da Janssen (farmacêutica da Johnson&Johnson). Elas têm sido menos efetivas contra a doença do que vacinas mais modernas, como a da Pfizer, feita de RNA mensageiro.
Em comunicado publicado no final de dezembro, pesquisadores de Hong Kong divulgaram resultados de testes em laboratório dizendo que mesmo três doses da Coronavac não são suficientes para produzir níveis adequados de anticorpos para combater a variante ômicron, descoberta no final de novembro na África com maior potencial de transmissão e que vem substituindo a delta e causando alta de casos em países como os Estados Unidos. Mesmo a alta cobertura vacinal chinesa, portanto, não conseguiria conter a disseminação do vírus.
Em entrevista à agência de notícias France-Presse, em novembro, o analista Yanzhong Huang, do Conselho de Relações Exteriores, uma entidade independente com sede nos Estados Unidos, disse haver uma pressão muito grande sobre o governo chinês para mudar a política. Mas para muitos especialistas, isso ainda parece distante — ao menos até a realização do congresso do Partido Comunista, no final de 2022.
Manter a política de “covid zero” é vista como uma maneira de dar tempo ao país para aprimorar as vacinas em relação às variantes e desenvolver planos para uma transição para uma fase de coexistência com o vírus. Pela imprensa oficial, a estratégia de “covid zero” é divulgada como um sucesso, e há pressões sobre funcionários públicos para aplicá-la com rigor — autoridades que não conseguem controlar os surtos são demitidas sumariamente.
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