Expresso

O papel da moda na construção de ícones modernistas

Thaís Ferreira

17 de fevereiro de 2022(atualizado 07/01/2025 às 15h43)

Livro ‘O guarda-roupa modernista’ explica como as roupas de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade foram fundamentais para que o casal conquistasse seu espaço na cultura brasileira

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FOTO: DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral a bordo de um navio

Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral a bordo de um navio

Os representantes do movimento modernista brasileiro, que nesta semana comemora o seu centenário com o aniversário da Semana de Arte Moderna de 1922 , além de terem sido transformados em ícones da cultura nacional por suas obras, alcançaram esse patamar pelos elementos relacionados à sua aparência. Isso é relatado no livro de Carolina Casarin, “O guarda-roupa modernista: o casal Tarsila e Oswald e a moda”, que analisa como a pintora Tarsila do Amaral (1886-1973) e o escritor Oswald de Andrade (1890-1954) construíram identidades marcantes a partir de suas vestimentas.

“As roupas contribuíram para o projeto artístico de elaboração de uma estética moderna e nacional, e a ideia de ‘brasilidade modernista’ se inscreveu na aparência e nos trajes do casal”, diz Casarin no livro publicado pela Companhia das Letras. Entre 1923 e 1929, no auge da carreira de ambos, os modernistas formaram o casal “Tarsiwald” – apelido dado à união pelo poeta Mário de Andrade.

Tarsila do Amaral pintou um dos quadros mais conhecidos entre os brasileiros, o “Abaporu” (1928). E quase 100 anos após a criação dessa obra, a exposição “Tarsila Popular”, em 2019, se tornou a mais visitada nos mais de 70 anos de história do Masp (Museu de Arte de São Paulo), com quase 403 mil visitantes.

Já Oswald de Andrade foi um dos organizadores da Semana de 22, em São Paulo, além de ter escrito dois importantes manifestos do modernismo, o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” (1924) e o “Manifesto Antropofágico” (1928).

Com base em fotografias, peças de roupas, pinturas, depoimentos, recibos e outros tipos de registros, a figurinista e professora de história do vestuário e da moda reconstituiu o guarda-roupa de Tarsila e Oswald. Antes de resultar no livro, a pesquisa compôs a tese de doutorado de Casarin em artes visuais na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

A musa modernista

FOTO: DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

Tarsila do Amaral na Inglaterra, nos anos 1920

Tarsila do Amaral na Inglaterra, nos anos 1920

Apesar de ter nascido em Capivari, no interior de São Paulo, Tarsila do Amaral cresceu cercada de costumes franceses, em razão da riqueza de sua família . Antes mesmo de se tornar ícone do modernismo, a pintora transitava entre a simplicidade interiorana e o luxo das capitais europeias.

Diferentemente de outros artistas da época, como Anita Malfatti, a situação financeira e social de Tarsila do Amaral permitiu que ela alcançasse sua emancipação artística, sem depender de mecenas, e também que pudesse aprimorar seus estudos. Entre 1920 e 1922, Amaral estudou na Academia Julian, em Paris, na França.

FOTO: REPRODUÇÃO/MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES

‘Autorretrato (Manteau rouge)’ (1923), de Tarsila do Amaral

‘Autorretrato (Manteau rouge)’ (1923), de Tarsila do Amaral

A vivência parisiense expôs Tarsila do Amaral à modernidade na capital da moda. Carolina Casarin explica em “O guarda-roupa modernista” que “a moda europeia de então [dos anos 1920] estava atrelada ao desenvolvimento da cidade e à experiência da vida urbana”. Ao voltar para o Brasil, meses após a Semana de 1922, a artista trouxe consigo essa experiência no modo de se vestir e de se portar.

O líder cosmopolita

FOTO: DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

Oswald de Andrade em viagem à Europa

Oswald de Andrade em viagem à Europa

Assim como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade vinha de uma família burguesa de São Paulo. Aos 22 anos, em 1912, o escritor foi enviado pelos seus pais para passar uma temporada na Europa. A experiência de conhecer cidades como Londres, Milão e Paris era tida pelos Andrade como um investimento no capital cultural de seu filho único.

Apesar das similaridades, a maneira como Oswald de Andrade se portava socialmente era mais excêntrica que a de sua companheira. Ele se apoiava na moda para desafiar as regras, assim como propunha no movimento modernista. “Oswald certamente conhecia as regras [das normas burguesas do vestuário masculino]: luvas de couro ou de pelica para o dia, nas cores bronze, cinza ou preto. As luvas de esporte brancas, de tricô, destoavam do padrão conservador da elite paulistana. Elas são um exemplo de como a irreverência de Oswald também estava expressa em seu visual, que causava escândalo, era moderno, e ao mesmo tempo garantiu certo culto à sua personalidade”, diz Carolina Casarin em seu livro.

O guarda-roupa modernista

FOTO: DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade na Grécia, em 1926

Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade na Grécia, em 1926

O estilo de vida do casal Tarsiwald era baseado em princípios luxuosos, cosmopolitas e modernos. Em eventos frequentados pelos dois ao redor do mundo, Tarsila e Oswald estavam sempre vestidos com itens de alta-costura.

“A relação amorosa trouxe mudanças significativas para as carreiras de ambos. Na medida em que Tarsila adere às tendências gerais da arte moderna, sobretudo ao cubismo, afirmando-se como pintora brasileira e produzindo uma arte aprovada por seus pares modernistas, cresce o interesse do casal pela moda francesa e a disposição de investir em trajes da alta-costura”

Carolina Casarin

em “O guarda-roupa modernista”

No poema “Atelier” (1925), de Oswald de Andrade, ele menciona a sua companheira como “a caipirinha vestida por Poiret”. O “caipirinha” é um referência à origem interiorana de Tarsila, fiel seguidora das criações do estilista francês Paul Poiret.

FOTO: DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

Tarsila do Amaral, em 1926, ao lado de seu quadro ‘Morro da favela’

Tarsila do Amaral, em 1926, ao lado de seu quadro ‘Morro da favela’

Embora Poiret tenha sido um importante nome na alta-costura francesa, o estilista já não estava mais no seu auge quando o casal modernista trajava suas peças. “Acho que o fato deles [Tarsila e Oswald] usarem o Poiret acaba revelando um jeito brasileiro de ser moderno, que não deixa de ser também conservador . O costureiro que o casal escolheu para legitimar esse lugar de respeito, no quadro da alta-costura francesa, já era um costureiro um tanto quanto antiquado, até conservador, se pensarmos que ele era refratário às mudanças da modernidade propostas por outras costureiras, como [Coco] Chanel, [Jeanne] Lanvin e até Jean Patou”, disse Casarin à Gama Revista.

Ainda que as roupas tenham sido uma parte importante das vidas de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, poucas dessas peças foram preservadas com o passar das décadas e também não estão reunidas de maneira significativa em nenhum museu brasileiro. Em 2021, o Farol Santander exibiu partes (o corpete e uma capa) do vestido de casamento de Tarsila com Oswald, assinado por Poiret. Esses fragmentos hoje fazem parte do acervo da Pinacoteca de São Paulo.

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