Expresso

Qual o ‘Projeto de Nação’ de militares ligados ao governo

João Paulo Charleaux

24 de maio de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h44)

Organizações lideradas por generais reformados ou da reserva lançam documento em que projetam como será o país em 2035 e listam propostas que emulam ideias olavistas e bolsonaristas

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FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS – 17.04.2020

Mourão com expressão séria, sozinho, diante de um painel azul com o Brasão da República

Vice-presidente Hamilton Mourão em evento no Palácio do Planalto, em imagem de arquivo, de abril de 2020

Um grupo de militares reformados e da reserva ligados ao governo do presidente Jair Bolsonaro lançou em 19 de maio, em Brasília, um documento chamado “ Projeto de Nação – O Brasil em 2035”, no qual projeta cenários e propõe políticas públicas a serem implementadas no país ao longo dos próximos 13 anos.

O texto emula ideias geopolíticas do escritor Olavo de Carvalho (1947-2022), reproduz teses antiambientalistas do bolsonarismo, reforça críticas presidenciais à atuação do Judiciário e propõe planos economicamente liberais como cobrar mensalidade nas universidades públicas e por atendimento no SUS (Sistema Único de Saúde).

Neste texto, o Nexo mostra quem fez e quem apoia o documento, lista as principais propostas e explica o crescente avanço dos militares no debate político brasileiro.

Quem apoia e quem fez o documento

O lançamento do “Projeto de Nação” dos militares teve a presença de membros do governo do presidente Jair Bolsonaro, que é capitão reformado do Exército.

Estavam lá o vice-presidente Hamilton Mourão e o assessor especial do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) do Planalto, Eduardo Villas Bôas , ambos generais da reserva do Exército, além do atual chefe do Estado-maior do Exército, o general da ativa Valério Stumpf Trindade.

O documento começou a ser produzido em 2020, tem 93 páginas, envolveu o trabalho de 40 pessoas é de responsabilidade de três think tanks liderados por militares de fora da ativa: o IGVB (Instituto General Villas Bôas) , o Instituto Federalista e o Instituto Sagres .

O trabalho foi coordenado pelo general reformado Luiz Eduardo Rocha Paiva, membro do conselho da Comissão de Anistia do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro.

Paiva é ex-presidente da ONG Ternuma (Terrorismo Nunca Mais), do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, notório torturador da ditadura militar que morreu em 2015.

FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 08.05.2019

O general Eduardo Villas Bôas durante sessão no Congresso Nacional

Tanto Villas Bôas quanto Paiva já estiveram envolvidos em investidas, veladas ou explícitas , contra o Supremo Tribunal Federal, corte que também é alvo constante de ataques de Bolsonaro.

O primeiro, quando era chefe do Exército, publicou tuítes em tom de ameaça na véspera do julgamento que definiria se o ex-presidente Lula seria preso em abril de 2018 – o petista acabou atrás das grades.

O segundo publicou textos no site do Clube Militar dizendo que, com a anulação dos processo de Lula na Lava Jato em março de 2021 pelo ministro Edson Fachin, do Supremo, o pais se aproximava de um “ponto de ruptura” .

O que diz o documento

O documento projeta como o Brasil e o mundo estarão em 2035, em diversas áreas, como saúde, educação, economia, segurança, política externa e democracia, entre outras. O país projetado pelos militares é economicamente liberal e moralmente conservador, além de privatista e punitivista .

A ideia do ‘globalismo’

A primeira ameaça citada de maneira prospectiva no documento é o “ globalismo ”, termo difundido pela extrema direita mundial e bastante presente nas falas de Olavo de Carvalho, escritor que morreu no início de 2022 e tinha forte influência sobre o governo Bolsonaro. Era um termo muito usado pelo olavista Ernesto Araújo , que comandou o Itamaraty entre janeiro de 2019 e março de 2021. Essa linha de pensamento diz que a soberania dos Estados está hoje ofuscada por organismos internacionais, ONGs e outras instâncias internacionais hipertrofiadas cujas decisões são impostas aos países.

A exploração da Amazônia

No Brasil, o movimento “globalista” estaria empenhado em “conceder benesses a determinadas minorias, em detrimento da maioria da população, a exercer ingerência em nosso desenvolvimento econômico, usando pautas ambientalistas a reboque de seus interesses e não pela necessária preservação da natureza, e a provocar crises que enfraquecem a Nação em sua busca pelo desenvolvimento”. É o mesmo pensamento defendido por Bolsonaro, para quem a Amazônia precisa ser explorada economicamente, inclusive em terras indígenas. Desde 2019, início do atual governo, a floresta vem batendo recordes seguidos de desmatamento.

Agronegócio e meio ambiente

Na projeção de futuro, o agronegócio aumentou sua produtividade em 35% “sem desmatamentos significativos e de maneira ambientalmente responsável” . O texto diz que a fase das críticas de organizações ambientalistas “alienígenas” e com “escusos interesses” foi superada, e o Brasil de 2035 entende a importância “de o capital nacional ter preeminência nas decisões nesse campo de alta relevância estratégica”, que é o agronegócio. O agronegócio é o “sustentáculo” da economia, em parceria com uma industrialização que recobra seu vigor, avançando pela Amazônia e pelo Nordeste, com subsídios públicos.

A Escola sem partido

O documento ressuscita ideias da “escola sem partido” – segundo a qual o atual ensino brasileiro é conduzido por doutrinadores de esquerda. O documento diz que “nossas crianças e adolescentes sofriam com a ideologização do sistema educacional, com a doutrinação facciosa efetuada por professores militantes de correntes ideológicas utópicas e radicais, com prejuízo da qualidade do ensino”, mas, em 2035, a sociedade “passou a exigir mudanças e a se contrapor às agressões — físicas, mentais e psicológicas — a que seus filhos e conhecidos eram submetidos, no ambiente escolar”.

Uma universidade paga

O texto também prega a cobrança de mensalidade ou anuidade nas universidades públicas, para os alunos que tenham condições financeiras de pagar, amplificando debate sobre o tema já em curso na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara dos Deputados, por meio da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 206/2019, de autoria do deputado federal General Peternelli (União-SP), que esteve presente no evento.

O SUS privado

Na projeção feita pelos três institutos, “a partir de 2025, o Poder Público passou a cobrar indenizações pelos serviços prestados, exclusivamente das pessoas cuja renda familiar fosse maior do que três salários mínimos”. Menção nominal é feita ao SUS (Sistema Único de Saúde), cujos serviços, atualmente universais e gratuitos, passam a ser cobrados a partir da faixa de renda especificada. “Essa medida encontrou forte resistência, especialmente da oposição política, mas atualmente [em 2035] comprova-se que não somente trouxe mais recursos para o SUS como também racionalizou atividades e procedimentos”, diz ainda o texto, sem no entanto apresentar dados numéricos. Ideia semelhante chegou a ser aventada pelo ex-ministro da Saúde de Michel Temer (2016-2018), que se tornou líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-RR).

Contra o ‘ativismo judicial’

Esse globalismo operado por elites internacionais também estariam por trás, no Brasil, de um “ativismo judicial político-partidário onde parcela do Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública atuam sob um prisma exclusivamente ideológico, reinterpretando e agredindo o arcabouço legal vigente, a começar pela Constituição brasileira”. Nesse trecho, os militares ecoam o ataques de Bolsonaro ao Supremo e ao Tribunal Superior Eleitoral.

As ‘antigas lideranças’ em baixa

O documento não cita Lula, mas um trecho parece se referir a ele e ao PT quando diz que, em 2035, “antigas lideranças patrimonialistas e fisiológicas, em grande medida envolvidas em corrupção” passam a estar, nesse futuro hipotético, restritas a “nichos” – ou seja, dentro de 13 anos, os autores do textos preveem que o lulismo e o petismo, não mencionados nominalmente como tais, se tornarão irrelevantes. Atualmente, Lula é líder nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de outubro.

As ‘novas lideranças’

Bolsonaro tampouco é citado pelo documento. Porém, os autores parecem se referir a seu governo quando dizem: “nas últimas duas décadas, sucessivas manifestações de grande porte tiveram, como ator coletivo, significativa parcela do povo que hoje se identifica como conservador e liberal, pressionando por mudanças estruturais no sistema de educação e no sistema político, em um processo que culminou com o despontar de novas lideranças”.

Neoliberalismo econômico

O documento diz que os brasileiros do futuro defendem “um liberalismo econômico não desmedido e com responsabilidade de apoio social”, marcado pela “desestatização da Economia”. Portos e aeroportos são privatizados, assim como a educação superior e o sistema de saúde. O texto também defende a redução do chamado “custo Brasil”, identificado como “os altos tributos, encargos sociais exagerados, órgãos e entidades com posições e decisões ideologizadas, insegurança jurídica, descumprimento de contratos, excessos burocráticos, corrupção”.

Geopolítica internacional

O texto projeta um conflito hipotético para 2028 entre “EUA e seus aliados, de um lado, e China e Rússia, de outro, tendo como palco a Guiana e sua produção de ouro e, especialmente, de bauxita”. A maior ameaça, no entanto, é cibernética. O Brasil sofre assédio nesse campo, mas o estudo não especifica quem são os atores envolvidos na agressão – se indivíduos autônomos ou Estados. Além disso, em 2027 e 2028, o mundo enfrenta uma nova pandemia, batizada de “Xvírus”. Mesmo com a constatação de especialistas da área de que sistema de saúde pública lidam melhor com pandemias, o estudo diz que o Brasil do futuro, mesmo com o SUS privatizado, lida melhor com o “Xvírus” do que com a covid-19.

Como esses militares querem os brasileiros

No mundo de 2035, “os cidadãos brasileiros, em sua maior parte, identificam-se como conservadores evolucionistas, no campo psicossocial, e liberais [no campo econômico], porém, conscientes da responsabilidade social de apoiar, com políticas públicas sustentáveis, as camadas carentes da sociedade”.

Essa identificação – que o documento não explica de que forma é atingida ao longo de 13 anos dentro de uma sociedade diversa e cheia de contradições próprias da democracia – “contribuiu em boa medida para atenuar cisões internas em território brasileiro, particularmente em seus matizes ideológicos, étnicos e religiosos, com reflexos positivos para a estabilidade político-social e a projeção internacional do país”.

Esses brasileiros do futuro almejados pelo grupo de militares reconhecem as mudanças de costumes no campo moral, mas se apoiam em raízes e tradições, das quais não se afastam. O documento não cita quais mudanças – se em relação a políticas de gênero e de raça, por exemplo –, nem tampouco explica quais seriam essas tradições intrínsecas às quais a sociedade imaginada no futuro se agarra.

A disseminação das ideias no governo

Os autores do estudo dizem que não houve nenhum investimento público na iniciativa, que é mantida apenas pelos três institutos, que vivem de doações privadas.

Na cerimônia de lançamento, os autores agradeceram a Mourão por ele ter permitido ao grupo “ir aos ministérios (…) para eles poderem disseminar no Brasil todo”, segundo Maria Verônica Korillo Campos, do Instituto Sagres, que ajudou a coordenar o trabalho junto com o general reformado Luiz Eduardo Rocha Paiva.

General Paiva disse que o trabalho “teve apoio de nosso vice-presidente para nós podermos tocar a pesquisa, senão essa pesquisa ficava muito restrita”. E sobre o resultado, afirmou o seguinte: “Já foi disponibilizado ao governo, porque ele é o único ente que pode tocar esse projeto para frente”.

Os militares e o governo Bolsonaro

Uma característica marcante do evento e do documento em si é a massiva participação de militares da reserva e reformados, além da presença, na plateia, do chefe do Chefe do Estado-Maior do Exército, que é um militar da ativa, cuja função constitucional não inclui a participação em eventos de natureza política .

A confusão entre militares e política é uma marca do governo Bolsonaro. O presidente faz questão de chamar o Exército de “seu” e de usar recorrentemente as Forças Armadas para ameaças a democracia brasileira, com ataques ao Supremo e ao sistema eleitoral. Os próprios militares dão vazão ao discurso golpista do presidente, levantando dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas.

FOTO: STRINGER/REUTERS – 23.05.2021

Pazuello segura microfone, discursa e faz sinal de positivo com a mão em cima de carro de som

General Eduardo Pazuello discursa em cima de um carro de som em evento político no Rio de Janeiro

Constitucionalmente, as Forças Armadas não têm nenhuma atribuição na política. Porém, profissionais do direito conservadores como Ives Gandra Martins argumentam que o artigo 142 da Constituição dá às Forças Armadas uma espécie de poder moderador entre os demais Poderes, o que é uma interpretação minoritária e quase unanimemente rechaçada no direito, mas que tem sido usada pelo bolsonarismo.

A confusão é ainda maior porque Bolsonaro colocou em seu governo um número inédito de militares , em cargos civis, em democracia. A maioria é de militares da reserva ou reformados, mas muitos da ativa também passaram a assumir cargos e desempenhar papel político. O caso mais conhecido é o do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que chegou a subir num carro de som ao lado de Bolsonaro, num evento político, mas foi inocentado pela Justiça Militar.

FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS-25.NOV.2021

Moro e Santos Cruz em evento de filiação do militar ao Podemos

Moro e Santos Cruz em evento de filiação do militar ao Podemos

Nem todos os militares defendem Bolsonaro. Exemplo disso é a posição de generais da reserva como Carlos Alberto dos Santos Cruz, que saiu do governo em junho de 2019, onde era ministro da Secretaria de Governo, e do general da reserva Rego Barros, que foi porta-voz de Bolsonaro, mas também saiu criticando o presidente.

Um dos maiores críticos do ativismo político entre militares é o coronel da reserva Marcelo Pimentel, que foi chefe do Estado-Maior da 7ª Região do Exército, que corresponde a Pernambuco e parte do Nordeste. Ele disse ao Nexo que classificou o documento como “uma recauchutagem da Doutrina de Segurança Nacional da época da ditadura com uma pegada, agora, gerencialista e neoliberal”.

Ele diz que o Instituto Villas Bôas – ligado ao ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas – “está para o Partido Militar como o Instituto FHC estava para o PSDB ou o Instituto Lula para o PT”.

Pimentel chama de “Partido Militar” toda uma corrente de militares reformados e da reserva que fizeram carreira política no Brasil, a maioria em cargos legislativos. E também os que, sem ter mandato, agem politicamente para impulsionar esses políticos.

Sobre o fato de os autores do documento serem militares que não estão na ativa. Pimentel diz: “pijama e farda, em dias de quartéis virtuais e diante do atual cenário, são praticamente a mesma coisa.”

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