Conheça o candidato do PTB à Presidência da República
Ana Elisa Faria
17 de agosto de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h43)O ‘Nexo’ continua a publicar as biografias dos postulantes ao Palácio do Planalto com a trajetória de Roberto Jefferson, ex-deputado federal que estreia na disputa presidencial em prisão domiciliar
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Roberto Jefferson é candidato à presidência pelo PTB
Roberto Jefferson Monteiro Francisco é o candidato do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) à Presidência da República nas eleições de 2022. Nasceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 14 de junho de 1953. Tem, portanto, 69 anos.
Faz parte de uma família de políticos petebistas: o pai e o avô foram vereadores pela legenda. Tem três filhos e, desde 2015, é casado com Ana Lúcia Novaes Jefferson Monteiro Francisco.
R$ 745.323,41
é o patrimônio declarado por Roberto Jefferson ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2022
Aos 18 anos, em 1971, Roberto Jefferson filiou-se à ala jovem do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido de oposição ao regime militar instaurado no Brasil a partir do golpe de 1964. Em 1975, começou o curso de direito na Universidade Estácio de Sá. Formou-se em 1979.
Deixou o PMDB (já com o “p”, de partido, no nome) na mesma época, teve uma passagem relâmpago pelo PP (Partido Popular) e, finalmente, em 1980, filiou-se ao PTB, sigla em que está desde então.
Jefferson ganhou notoriedade ao participar do programa sensacionalista “O Povo na TV”, na antiga TVS, hoje SBT, entre 1979 e 1982, como advogado de pessoas carentes e desassistidas. A atração, espécie de “Aqui Agora” do momento, tinha abrangência nacional, com casos polêmicos, fofocas do meio artístico e queixas de consumidores mal atendidos.
O sucesso na televisão foi tão grande que impulsionou a primeira candidatura de Jefferson para deputado constituinte, em 1983. Depois da estreia vitoriosa nas urnas, ele teve, no total, seis mandatos consecutivos pelo estado do Rio de Janeiro, até ser cassado, em 2005.
Foi um dos principais aliados de Fernando Collor de Mello (PRN, na época). Deu apoio ao então presidente durante a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investigava suas ligações com o esquema do ex-tesoureiro de campanha Paulo César Farias, o PC Farias. Confirmando sua fidelidade ao mandatário, Jefferson foi um dos 38 parlamentares que se opuseram à abertura do processo de impeachment . Collor renunciou ao mandato em 29 de dezembro de 1992, horas antes de ser cassado pelo Senado.
Durante seu mandato, Jefferson também apoiou o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), sobretudo no primeiro mandato do tucano (1995-1998). A relação com os tucanos, porém, começou a ruir em 2000, depois da reeleição de FHC. O PTB rompeu com o presidente, insatisfeito com a falta de cargos. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, o partido tinha interesse no Ministério da Agricultura, mas não foi atendido .
A aproximação com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou em dezembro de 2002, antes da posse do petista. Jefferson, eleito para mais um mandato, disse que seu partido “confiava cegamente” em Lula . O apoio irrestrito se confirmou na formação do primeiro ministério do PT, quando dois políticos ligados ao PTB, o deputado Walfrido Mares Guia (MG) e o senador Carlos Wilson (PE) ficaram com o Ministério do Turismo e a presidência da Infraero, respectivamente.
No primeiro semestre do governo, o PTB engordou a bancada na Câmara em função de trocas partidárias. Em muitos momentos, Jefferson, um político conservador, precisou justificar sua aproximação com o PT. Em julho de 2004, já como presidente nacional do PTB, disse que o partido de Lula “tinha mudado” .
Em 2005, após a revista Veja publicar uma reportagem sobre um esquema de corrupção nos Correios, Roberto Jefferson foi apontado como “homem-chave do PTB” no arranjo. Acuado e se sentindo traído pelo governo por não ser defendido das acusações, o então deputado concedeu entrevista à Folha de S.Paulo, em agosto daquele ano, na qual revelou o esquema do mensalão : pagamentos sistemáticos do PT a parlamentares em troca de apoio no Congresso.
O esquema rendeu a cassação de mandatos de petistas, além de políticos aliados e ex-aliados, como o próprio Jefferson. Em 2012, muitos deles, incluindo o petebista, foram condenados à prisão pelo Supremo.
Mesmo com o mensalão, Lula foi reeleito em 2006, um ano após o caso vir à tona, e conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), em 2010 e 2014. Foi um período em que Jefferson submergiu, cumprindo a pena pelo mensalão, inicialmente em regime semiaberto.
Apesar de não apoiar Dilma, o PTB acabou ficando com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, após a nomeação de Armando Monteiro , em 2015. Em agosto do mesmo ano, o partido deixou a base do governo alegando postura de independência em relação ao mandato da petista.
Roberto Jefferson recebeu indulto da pena do mensalão em abril de 2016. Junto com a liberdade, foi reconduzido à presidência do PTB. Ao jornal O Globo, afirmou que o partido era a favor do impeachment de Dilma . O rompimento com o PT estava consolidado. O petebista viria a reaparecer na cena política após a queda de Dilma em 2016.
O vice da petista, Michel Temer (MDB), assumiu a Presidência. Em 2018, Jefferson conseguiu emplacar a filha, Cristiane Brasil, no Ministério do Trabalho. A nomeação, no entanto, foi barrada pelo Supremo, que atendeu à decisão de um juiz da 4ª Vara Federal de Niterói com o argumento de que Cristiane havia sido condenada num processo de direito trabalhista movido por um ex-motorista e, portanto, não poderia assumir o cargo. Mesmo após os problemas com Cristiane, Jefferson manteve o apoio do PTB ao governo Temer.
Roberto Jefferson e o padre ortodoxo Kelmon Souza compõe a chapa do PTB à presidência e vice-presidência
Há mais de quatro décadas, Jefferson é filiado do PTB , partido criado nos anos 1940 e pelo qual é, hoje, presidente de honra. No entanto, tem no currículo partidário passagens breves por outras duas legendas. São elas:
No pleito de 2018, Jefferson apoiou Geraldo Alckmin (PSDB, na época) no primeiro turno e Jair Bolsonaro (PSL, na época) no segundo. Durante a campanha, ele declarou que as propostas do capitão reformado colocariam o Brasil de volta “aos trilhos do desenvolvimento social e econômico”.
“Nossa ação não se opõe a Bolsonaro. Confronta a abstenção, preenchendo alguns nichos de opção ao eleitorado direitista (…) Não desejo inibir nenhum companheiro que deseja apoiar, no partido, o presidente à sua reeleição. Apoie. Ao final, estaremos juntos”
Assim como outros partidos do centrão que foram criticados por Bolsonaro desde a campanha, o PTB deu apoio a votações importantes para o governo, como a reforma da Previdência , promulgada em novembro de 2019.
Em meados de 2020, Jefferson passou a aderir de forma mais explícita ao bolsonarismo. Desde então, sua atuação tem sido radicalizada, seja por meio de discursos ou atitudes. O petebista adotou os mesmos posicionamentos de Bolsonaro. Foi contra as decretações de isolamento social por governadores e prefeitos, passou a defender a legitimidade de uma intervenção militar e atacou de forma homofóbica o ex-governador Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul.
Jefferson passou a aparecer armado em postagens e abriu as portas do PTB para integralistas , que levam a cabo um movimento de matriz fascista em nome de uma agenda que agrega nacionalismo, referências ao cristianismo, discurso anticomunista e rejeição das regras democráticas.
Em agosto de 2021, Jefferson foi preso preventivamente no âmbito do inquérito que o investiga por ataques às instituições democráticas. Na decisão, o ministro do Supremo Alexandre de Moraes citou uma série de postagens e entrevistas nas quais ele ataca o tribunal e o Congresso. Nas declarações, o petebista propunha invadir o Senado para interromper os trabalhos da CPI da Covid, ameaçava a realização das eleições e clamava por intervenção militar e insurreição popular.
Em janeiro de 2022, a prisão de Jefferson foi convertida em domiciliar. Em junho, o petebista se tornou réu pelos crimes de homofobia, calúnia e incitação ao crime de dano ao patrimônio da União.
INELEGIBILIDADE
As pretensões eleitorais de Jefferson devem esbarrar em questões judiciais. A Lei da Ficha Limpa determina que condenações em ações criminais, como a recebida por Jefferson no âmbito do mensalão, resultam em inelegibilidade por oito anos. O TSE tem até 12 de setembro para fazer essa análise e aprovar ou impugnar a candidatura. Além disso, no momento ele cumpre prisão domiciliar, não tem acesso às redes sociais e está proibido de dar entrevistas sem autorização da Justiça .
DISCURSO PARA A EXTREMA DIREITA
O candidato pode agradar a fatia do eleitorado que se identifica com a extrema direita brasileira.
Roberto Jefferson escolheu como vice na chapa puro-sangue do PTB o padre ortodoxo Kelmon Souza , que se descreve como “conservador de direita” e que diz combater “o avanço da esquerda cristofóbica no país”.
O líder religioso encabeça dois movimentos: o MCC (Movimento Cristão Conservador do PTB) e o Meccla (Movimento Cristão Conservador Latino-Americano).
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