Expresso

A dimensão do inverno nuclear que EUA e Rússia podem causar

Cesar Gaglioni

19 de agosto de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h48)

Pesquisa da Universidade Rutgers prevê bilhões de mortes ao longo de dois anos em caso de confronto entre as duas principais potências atômicas do mundo

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FOTO: REPRODUÇÃO/WIKIMEDIA COMMONS

Bomba de Hiroshima, em 1945

Bomba de Hiroshima, em 1945

Uma guerra nuclear entre Estados Unidos e Rússia mataria 5 bilhões de pessoas em dois anos, de acordo com um estudo da Universidade Rutgers, nos EUA, publicado na segunda-feira (15) pela revista Nature.

A pesquisa, que usou dados atualizados da condição climática do planeta e do poderio militar das nações, concluiu que um “inverno nuclear” seria a principal consequência de um embate atômico, criando um frio constante no mundo todo que traria consigo uma fome de grandes proporções. O estudo foi feito em meio às tensões decorrentes da guerra entre Rússia e Ucrânia e quis servir como um “alerta” para governantes dos mais diversos países.

Neste texto, o Nexo explica o cenário apocalíptico que viria junto de uma guerra nuclear de grandes proporções.

Pesadelo atômico

Desde 1945, quando os Estados Unidos bombardearam as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, bombas atômicas não são usadas em confrontos. Foi a primeira e única vez que esse tipo de armamento foi usado.

Ao todo, as bombas mataram cerca de 226 mil pessoas no momento das explosões e milhares de outras – não contabilizadas – ao longo dos anos em decorrência da exposição à radiação, algo que faz surgir doenças como os mais diversos tipos de câncer.

Desde 1970, 170 países assinaram o Tratado de Não Proliferação Nuclear, elaborado pela Organização das Nações Unidas para frear a proliferação de armas de destruição em massa.

Por causa do poder de destruição, ameaças atômicas não são corriqueiras. O recurso a armas nucleares é entendido como último recurso à força, como a “solução definitiva” para impasses intransponíveis entre países.

A eclosão da guerra na Ucrânia em 2022 fez crescer a tensão entre Estados Unidos e Rússia, as duas principais potências nucleares do mundo. Desde então ambos países partiram para demonstrações de força, por meio de exercícios militares com armamentos nucleares e ameaças mútuas e ambíguas.

Em 2022, os Estados Unidos têm 3.750 míssil com capacidade nuclear em seu arsenal. Apenas o presidente tem capacidade de autorizar a disparada. A Rússia conta com 5.977, que também só podem ser disparados com autorização dada pelo chefe do Executivo. Eles são feitos à base de urânio e são mais destrutivos do que as bombas de Hiroshima e Nagasaki usadas em 1945.

As bombas nucleares funcionam a partir de uma reação em cadeia que ocorre a partir da quebra dos átomos de urânio. A energia liberada se dispersa tão rapidamente e tão abruptamente que gera uma explosão, que por sua vez gera outra e assim sucessivamente até todo o material entrar em combustão.

Apesar das tensões, analistas políticos não veem um risco iminente de uma guerra nuclear.

Inverno nuclear

Uma guerra atômica entre Estados Unidos e Rússia causaria um longo inverno nuclear, segundo a pesquisa da Universidade Rutgers, já que são os maiores arsenais atômicos do mundo.

O estudo foi feito a partir de dados atmosféricos do mundo todo e da análise do poderio das armas atômicas atuais. Eles foram jogados em simuladores para criar uma modelagem numérica dos cenários possíveis após um confronto dessas proporções.

No intervalo de dois anos a partir do primeiro dia da guerra atômica, 5 bilhões de pessoas morreriam, de acordo com a pesquisa. A quantidade de detritos jogados na atmosfera com o lançamento de 4.400 bombas impediria a entrada de boa parte da luz solar e as temperaturas mundo afora cairiam bruscamente, causando um período de inverno constante no qual a temperatura média do ar seria de -16ºC em todo o planeta. Parte dos mares congelaria, já que a temperatura da água chegaria a -6ºC, em média.

Criações de gado e plantações morreriam, dadas as baixas temperaturas e a alta presença de material radioativo no ar. A fome assolaria o mundo.

20%

é o percentual da população global que teria acesso à recomendação diária de consumo de calorias

O estudo da Rutgers também calcula os efeitos de outras eventuais guerras nucleares. No caso de um conflito entre Índia e Paquistão, que detêm os maiores arsenais atômicos após americanos e russos, a escala das consequências seria menor – morreriam 2 bilhões de pessoas, em vez de 5 bilhões, caso 1.200 bombas explodissem. A natureza dessas consequências, no entanto, seria a mesma.

“Concluindo, a luz reduzida, a queda global de temperatura e as restrições comerciais depois da guerra nuclear seriam uma catástrofe global”, diz o estudo. “Esses resultados reiteram o que foi dito por governantes, de que uma guerra nuclear não pode ser vencida e nunca deve ser travada.”

Temores de um inverno nuclear são ventilados desde 1983, quando o físico americano Carl Sagan publicou um artigo na revista do museu Smithsonian alertando a humanidade para os perigos de uma guerra do tipo. “A possibilidade de extinção da espécie humana não pode ser descartada”, afirmou Sagan. O artigo foi considerado essencial para que as civilizações entendessem o perigo desse cenário.

A guerra entre Rússia e Ucrânia trouxe de volta um sentimento comum nos anos 1960. O antagonismo atual entre russos e potências ocidentais revive o que se convencionou chamar de ansiedade nuclear, estado de ânimo que marcou parte da população global durante o período mais agudo da Guerra Fria.

A Ican, ONG global que luta pelo desarmamento atômico, publicou em seu site uma série de dicas para lidar com os temores causados pela ansiedade nuclear. As recomendações foram escritas por psicólogos e psiquiatras.

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