Expresso

O que a Amazônia tem a ver com 5 temas que preocupam brasileiros

Marcelo Roubicek

04 de setembro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 23h26)

Economia, fome, saúde, violência e corrupção estão entre principais problemas do país em 2022, segundo eleitores. O ‘Nexo’ mostra por que combater o desmatamento no bioma é uma forma de enfrentá-los

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FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 12.JUN.2022

Vista aérea de floresta, com rio tortuoso cortando a mata. Uma pequena comunidade está na beira do rio.

Vista aérea de Atalaia do Norte, no Amazonas

O Brasil comemora nesta segunda-feira (5) o Dia da Amazônia , data instituída por lei em 2007 para celebrar a maior floresta tropical do mundo.

Em 2022, a situação da Amazônia, bioma no qual o desmatamento disparou nos últimos anos, é um tema muitas vezes apresentado como restrito à pauta ambiental. O impacto da destruição da floresta, no entanto, vai muito além, e afeta diversas áreas.

Neste texto, o Nexo mostra como a Amazônia se relaciona com cinco dos principais problemas percebidos pela população brasileira em 2022, segundo pesquisa eleitoral Genial/Quaest realizada no fim de agosto , sob registro BR-00585/2022: economia, questões sociais (como a fome), saúde, violência e corrupção.

Economia

Segundo dados do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa), ligado ao Observatório do Clima, o desmatamento é o principal responsável pelas emissões brutas brasileiras de gases de efeito estufa, com mais de 40% . É o que mostra o gráfico abaixo, em que o desmatamento aparece como “mudança de uso da terra e florestas”.

DESMATAMENTO LIDERA

Setores responsáveis por emissões no Brasil. Desmatamento na liderança

Isso significa que o desmatamento é a principal contribuição do Brasil para a mudança climática . A crise do clima já tem um efeito considerável sobre a economia do país – e esse efeito tende a piorar se a destruição da floresta continuar aumentando. O desmate na região cresce desde meados da década de 2010, e disparou durante o governo de Jair Bolsonaro.

CRESCENDO

Desmatamento anual na Amazônia. Curva ascendente a partir de meados dos anos 2010.

Uma das principais frentes desses impactos são os eventos climáticos extremos , como secas prolongadas e chuvas excessivas. Esses fenômenos prejudicam a produção agrícola de pequena e grande escala. Ou seja, afetam desde a agricultura familiar até os grandes produtores do agronegócio. Foi o que aconteceu em 2021 , por exemplo, com a produção de feijão, milho, café e açúcar, que foram prejudicadas por secas e geadas.

A Amazônia também tem um papel central na regulação do clima e da umidade no Brasil e na América do Sul. Esse equilíbrio pode ser bruscamente afetado em um cenário em que a floresta chega ao ponto de não-retorno – quando os danos se tornam irreversíveis e a Amazônia não tem mais capacidade de se regenerar diante do desmatamento, caminhando em direção ao que cientistas chamam de savanização . Nesse caso, haveria menos chuvas, e a agricultura no Centro-Oeste e Sudeste brasileiro também perderia produtividade. Atividades de pesca também podem ser gravemente atingidas pelas secas extremas.

FOTO: ROOSEVELT CASSIO/REUTERS – 30.JUL.2021

Pessoa caminha entre filas de cafezais que estão com aspecto queimado

Plantação de café afetada pela geada em Varginha, Minas Gerais

Os desequilíbrios causados pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas têm também efeito importante sobre o setor de energia . Uma das principais formas pela qual esse impacto aparece é o risco de ameaçar a disponibilidade de energia hidrelétrica, responsável por cerca de 60% da matriz elétrica brasileira .

As secas podem esvaziar os reservatórios das usinas hidrelétricas, levando ao acionamento de usinas termelétricas, que são mais caras e poluentes . Foi o que aconteceu em 2021. Isso prejudica o bolso dos consumidores, mas também a indústria , o comércio e os serviços.

Um estudo de 2019 de cientistas da Universidade de Stanford, na Califórnia, estimou que o PIB per capita brasileiro entre 1991 e 2010 foi 13,5% menor por causa de efeitos das mudanças climáticas. O PIB per capita equivale a tudo que um país produz em um período dividido pela população. Ou seja, o Brasil deixou de produzir bens e serviços por causa da crise do clima – a produtividade da economia foi afetada.

Um outro estudo de 2011 do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Ministério da Economia) projetou que o PIB brasileiro pode ser até 2,3% menor em 2050 por causa de efeitos das mudanças climáticas.

FOTO: TV BRASIL/AGÊNCIA BRASIL/ 08.09.2021

Floresta Nacional de Carajás, área de conservação localizada no sul do estado do Pará (PA)

Floresta Nacional de Carajás, área de conservação localizada no sul do estado do Pará (PA)

Há alternativas para esses cenários de avanço do desmatamento e prejuízo econômico. Além da urgência de frear a devastação da floresta, como o Brasil já fez no passado , a região tem potencial de desenvolver e impulsionar atividades econômicas com baixo impacto ambiental e inclusão social, por meio de conceitos como a economia verde e a bioeconomia, que já fazem parte da realidade de comunidades locais.

Essas correntes veem enorme potencial econômico num cenário em que a floresta é preservada – um exemplo é a iniciativa Amazônia 4.0 . Portanto, o combate ao desmatamento não significa necessariamente que a região amazônica deixará de ser explorada economicamente. Destruir a floresta, por outro lado, é garantia de prejuízos para a economia brasileira como um todo.

Questões sociais como a fome

Os efeitos econômicos ligados ao desmatamento e às mudanças climáticas se manifestam também na forma de falta de produtos e inflação.

Os problemas causados sobre a agropecuária, por exemplo, prejudicam a produção de alimentos. O IPCC – Painel Intergovernamental de Mudança do Clima, vinculado à ONU – associa mudanças climáticas ao risco de escassez global de alimentos .

A produção de alimentos depende do clima. Estimativas do órgão ligado à ONU são de que o clima responde por cerca de 30% da produtividade da agropecuária.

FOTO: RICARDO MORAES/REUTERS – 02.SET.2021

Mulher pega vegetais em barraca de feira de rua. Atrás dela, um homem olha os produtos em disposição, que incluem cenoura e vagem.

Feira de rua no Rio de Janeiro

Com mudanças climáticas, a produção de alimentos pode ser prejudicada não apenas quantitativamente, como qualitativamente. Plantações, por exemplo, podem não se desenvolver completamente, e grãos podem não encher. A pastagem usada na criação de animais também pode ter qualidade pior, o que encarece todo o processo de produção de carne e outros produtos ligados à pecuária.

Por todos esses motivos, a questão climática – associada fortemente ao desmatamento no Brasil – tem efeitos sobre a inflação, sobretudo de alimentos. Isso pode contribuir para agravar o cenário da fome no país, tanto pela escassez de alimentos como pelos preços mais altos.

A inflação de alimentos não atinge todas as parcelas da população de forma igual. Afinal, as cestas de consumo de diferentes faixas de renda não são idênticas . Famílias de baixa renda gastam uma proporção maior de seus rendimentos com alimentos: os alimentos são mais pesados no orçamento mensal de quem ganha menos.

FOTO: RICARDO MORAES/REUTERS – 24.JUN.2021

Um homem de boné segura uma marmita e come de cabeça baixo. Ele está debaixo de um viaduto.

Homem come refeição recebida por doação debaixo de viaduto no Rio de Janeiro

Há também uma outra forma pela qual desmatamento e mudanças climáticas afetam o bolso dos brasileiros. O encarecimento da produção de energia elétrica quando há secas extremas leva ao aumento da conta de luz . É mais um fator que pesa para as famílias brasileiras.

Um estudo do economista Ricardo Abramovay, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP, mostrou que o modelo de desenvolvimento econômico baseado em desmatamento da Amazônia “ não elevou o padrão de vida da população” local. Ou seja, os impactos de destruir a floresta não são positivos do ponto de vista social – além de trazerem prejuízos para a atividade econômica local e alimentarem conflitos sociais.

Nesse sentido, portanto, frear o desmatamento é algo que pode render frutos para a população em escala nacional e regional. Para isso, é necessário expandir e aplicar políticas de proteção à floresta, com maior fiscalização e incentivos financeiros para desmontar a chamada economia do desmatamento.

Saúde pública e pandemia

A saúde também é um tema que surge quando o assunto são os possíveis impactos do desmatamento. Em texto publicado no Nexo Políticas Públicas em outubro de 2020, os biólogos Gabriel Zorello Laporta e Paula Ribeiro Prist explicaram por que é possível fazer uma relação entre o aumento do desmatamento e o risco mais alto para a saúde humana.

A principal manifestação desse risco acontece, segundo os pesquisadores, na forma de zoonoses. Trata-se de doenças infecciosas que podem passar de animais para humanos e vice-versa. É comum que haja muitos desses agentes patológicos em áreas tropicais preservadas. “Porém, nem toda área natural representa risco potencial de transmissão dessas doenças”, dizem. É necessário que haja ação humana para que esse contato aconteça.

O desmatamento é, no Brasil, a forma mais presente dessa ação humana. “Além de provocar a perda do habitat natural, o desmatamento provoca alterações nas comunidades de seres vivos que ali habitam, que acabam se tornando mais simplificadas e menos diversas”, escrevem Laporta e Prist. “Geralmente as espécies que conseguem sobreviver nesses ambientes são justamente as que carregam patógenos e que são reconhecidas como hospedeiros e vetores de doenças. Além de se tornarem mais abundantes, elas acabam se tornando também mais infecciosas”.

FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 9.FEV.2021

Imagem mostra homem idoso vestido a camisa da seleção brasileira recebendo vacina no braço esquerdo de profissional de saúde usando avental, touca e máscara

Morador de comunidade às margens do rio Negro, no Amazonas, recebe vacina contra a covid-19

Tudo isso significa que o desmatamento aumenta o risco para pessoas próximas dessas áreas, sejam moradores de comunidades locais (incluindo até mesmo agentes do desmatamento) ou membros de povos originários.

Na Amazônia, esses efeitos sobre a saúde já se manifestam, de acordo com os pesquisadores. “O desmatamento, ainda mais da forma ampla e irrestrita como está sendo realizado na Amazônia, está longe de ser apenas um problema moral – ele está prestes a se tornar um problema de saúde pública. Estudos já comprovaram que o desmatamento pode levar ao aumento da transmissão da malária, hantavirose, leishmaniose, doenças de chagas e febre amarela, para citar apenas alguns exemplos conhecidos”, afirmam.

Há também outros tipos de efeitos sobre a saúde humana, como a piora da qualidade da água em regiões desmatadas, o que pode levar a casos de diarreia, febre e pneumonia em comunidades locais. Além disso, a incidência de doenças respiratórias está ligada a queimadas e incêndios da ação de desmatamento. O aquecimento do planeta resultante da mudança climática também tem impactos para a saúde humana – seja por meio de ondas de calor com efeitos letais ou piorando doenças que já existem.

FOTO: LUÍS FÁBIO SILVEIRA /MZ-USP

Passarinho de penugem listrada em preto e branco apoia-se em galho

Choquinha-do-tapajós (Myrmotherula klagesi), ave nativa da Amazônia

Um estudo de 2012 do biólogo Cleber José Rodrigues Alho, da UnB (Universidade de Brasília), também mostrou como a biodiversidade tem papel central para a saúde humana. Ele argumenta que a biodiversidade provê à espécie humana bens essenciais como fármacos e alimentos, além dos chamados serviços ambientais , como a purificação do ar e a própria regulação do clima.

A maior biodiversidade do planeta está na Amazônia. Por isso, a preservação da floresta também significa, indiretamente, a preservação da saúde da população brasileira. O investimento no combate ao desmatamento, portanto, é também um investimento na saúde pública do país, podendo ajudar no combate a zoonoses e na preservação dos bens e serviços “providos” pela floresta.

Violência e segurança pública

O desmatamento na Amazônia é também um problema de segurança pública . Em dezembro de 2020, um relatório produzido pelo Conselho Militar Internacional sobre Clima e Segurança afirmou que o “desmatamento ilegal desenfreado atrai outras formas de atividade ilegal, que também podem crescer rapidamente”. O órgão reúne chefes militares e especialistas e instituições de segurança de 38 países.

A região amazônica tem observado uma disparada da criminalidade em anos recentes, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O fenômeno vai na contramão do restante do Brasil.

FOTO: GETTY IMAGES

Foco de incêndio na floresta amazônica

Foco de incêndio na floresta amazônica

O número de assassinatos no Brasil caiu 7% em 2021 na comparação com 2020, segundo dados do Monitor da Violência , parceria do site G1 com o NEV-USP (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo) e com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mas a região Norte destoa da tendência nacional. Na região, a alta de assassinatos em 2021 foi de 10% em relação a 2020, puxada pelo Amazonas: 54% homicídios a mais.

O aumento de homicídios na região ganhou destaque nacional e internacional em 2022, com o assassinato do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. O crime aconteceu no Vale do Javari, no Amazonas, em 5 de junho. Três suspeitos chegaram a ser presos e viraram réus – o Ministério Público Federal entende que os assassinatos foram cometidos após Dom fotografar , a pedido de Bruno, um barco suspeito de pesca ilegal.

O professor e pesquisador Aiala Colares, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Universidade Estadual do Pará, disse ao Nexo em junho de 2022 que há quatro eixos de criminalidade associados ao aumento de homicídios na Amazônia. São eles:

  • Tráfico de drogas , como a movimentação de cocaína na fronteira com Colômbia e Peru
  • Contrabando de madeira , que acompanha as rotas do narcotráfico
  • Pesca ilegal , como é suspeito no caso de Dom Phillips e Bruno Pereira
  • Contrabando de minérios , principalmente o ouro

No último caso do contrabando dos minérios, essa atividade está diretamente relacionada com outra prática ilegal: o garimpo, que tem impactos ambientais, sociais e para a saúde pública negativos na Amazônia.

O garimpo tem crescido na floresta, associado muitas vezes ao narcotráfico e explorando brechas da legislação brasileira. Grupos de garimpeiros têm conquistado cada vez mais poder na região graças à falta de fiscalização e ao apoio aberto de políticos como o presidente Jair Bolsonaro.

Corrupção

O garimpo, o desmatamento e o crime organizado na Amazônia, de modo geral, agem aliados com a corrupção de agentes públicos de fiscalização. Numa reportagem do portal UOL em 2019, o procurador Joel Bogo, do Ministério Público Federal, disse que os crimes ambientais “ envolvem corrupção de agentes públicos , milícias para fazer a grilagem de terra e lavagem de dinheiro, já que o produto do crime é ocultado por meio de laranjas”.

A grilagem é o termo usado para referir à invasão de uma área, que é posteriormente reivindicada por meio de documentos falsos. Historicamente, os grileiros deixam rastros de danos ambientais, atividades extrativistas irregulares, conflitos no campo e doenças.

FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 28.SET.2022

Vista aérea da Amazônia

Vista aérea da Amazônia

O avanço de todas essas atividades criminais na Amazônia é frequentemente associado por especialistas à política ambiental do governo Bolsonaro. A partir de 2019, o Executivo federal promoveu o desmonte das políticas de proteção ambiental – com esvaziamento de órgãos, paralisação da demarcação de terras indígenas (que atuam para proteger a floresta ) e discurso de minimização ou até negação dos problemas.

Em entrevista ao Nexo em novembro de 2021, Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, disse que o caminho para reduzir o desmatamento – e, consequentemente, diminuir as emissões causadas por essa atividade no Brasil – passa pela reestruturação do sistema de combate aos crimes ambientais .

Para Astrini, é necessário “fortalecimento tanto das agências de fiscalização ambiental – como Ibama e ICMBio – como do policiamento e da força de implementação da lei no local do desmatamento”.

Colaborou Caroline Souza com os gráficos

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