Eleições 2022: o que cada cargo em disputa pode fazer pelo clima
Ana Elisa Faria
11 de setembro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h43)O ‘Nexo’ explica qual a responsabilidade de presidente, governadores e parlamentares em relação ao tema e dá dicas de como escolher um candidato que, de fato, se preocupe com a crise climática
Enchentes na cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro
Oplaneta vive uma emergência climática , e o Brasil, país que abriga parte da Amazônia , maior floresta tropical do mundo, tem papel imprescindível no combate às mudanças do clima.
A década atual é considerada fundamental para frear o problema e limitar o aquecimento global a 1,5ºC até 2100. Sem mudanças nas ações dos países, o cenário atual pode levar o planeta a um aquecimento muito além disso – o que aumentaria a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos, como temporais, secas, ondas de calor intenso e outros.
O mandato dos governantes e parlamentares eleitos em 2022 vai pegar boa parte do período de implementação das metas de cortes de emissões de gases do efeito estufa estabelecidas no Acordo de Paris , tratado universal de combate à mudança climática. O Brasil se comprometeu a reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 37% até 2025 e pela metade até 2030. O desmatamento é responsável por mais de 40% das emissões do país.
Pensando nisso, o Nexo traz um guia para orientar a sua decisão de voto em relação ao clima, com análises de Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima , e Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa . Entenda qual a responsabilidade de cada cargo em disputa em 2022, o que cobrar dos candidatos e como escolher alguém que, de fato, seja preocupado com o tema.
Ignorar que o Brasil, assim como o mundo, passa por uma emergência climática não impacta “só” o meio ambiente. Essa atitude afeta também outras áreas, como a economia , pauta que qualquer candidato salienta em discursos políticos.
Secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini lembra, por exemplo, que há na China uma discussão sobre como evitar a compra de produtos que tenham manchas de desmatamento na cadeia produtiva. “Países como o nosso, se continuarem desmatando da maneira como estão, vão perder mercado internacional, o que acabará trazendo prejuízos para a geração de emprego e para a economia”, fala.
Além disso, há a questão social, que abala todos os níveis governamentais, estados, municípios e o próprio governo federal . “Vimos recentemente Petrópolis , com pessoas morrendo, casas desabadas, gente desaparecida. Um clima extremo traz isso: tragédia, prejuízo financeiro, perdas irrecuperáveis, mortes. Então, se a gente não se preparar para enfrentar esses eventos, se não fizermos a lição de casa e diminuir o ritmo do aquecimento do planeta, vamos ter catástrofes cada vez mais frequentes acontecendo”, alerta Astrini.
Toda essa espiral de desastres leva ao aumento da desigualdade social , como exemplifica Astrini: “não adianta criar um programa e dar um imóvel a quem não tem teto e, em seguida, vir uma chuva que tira a casa de outras duas pessoas. Assim, o problema social nunca será vencido porque de um lado existe o investimento, mas do outro, sem cuidados climáticos e adaptação ambiental, o próprio clima vai causar um dano muitas vezes maior que o benefício oferecido à população pela política social. A conta de um planeta com o clima mais quente, extremo, vai sempre cair no colo do cidadão pobre, que já tem mais dificuldade.”
Presidente, governadores, senadores e deputados, federais, estaduais ou distritais, têm funções específicas definidas pela Constituição quando o assunto é trabalhar em temas relacionados ao clima.
O discurso de um presidente passa um sinal bastante forte que guia mercados e outros agentes políticos, em Brasília e no país todo. Por isso, conforme salienta Natalie Unterstell, a pauta climática terá o tom da fala e das ideias do chefe do Executivo.
“Se ele diz ‘a gente não vai tolerar ilegalidades’ ou ‘vamos buscar a descarbonização’, isso em si já é poderoso e, na prática, é assim que funciona mesmo. Ele tem uma caneta de decreto que pode muita coisa.” Segundo ela, quem se senta na cadeira da Presidência da República tem o poder de criar instrumentos, como o pagamento por serviços ambientais, que estão em lei, mas não existem ainda de fato.
A proteção de áreas da União, como florestas e terras indígenas, também está no campo presidencial. “Nenhum ator privado ou governador pode proteger por conta própria uma terra indígena. Caso o presidente não se mova para que isso aconteça, não oriente a Funai (Fundação Nacional do Índio), o Ministério da Defesa ou a Polícia Federal, nada pode ser feito ali”, resume Unterstell.
No Brasil, ainda, quem regula a mudança de uso da terra, nome técnico para o desmatamento, de onde vem a maior parcela das nossas emissões de gases de efeito estufa é, basicamente, o governo federal. Ele é responsável por entidades como Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). É a legislação nacional e as normas federais que determinam o funcionamento dos órgãos de fiscalização, controle e regramento.
É a máquina federal também que tem nas mãos o Fundo Amazônia , mecanismo criado em 2008 para a captação de doações para investimentos em ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento, e de promoção da conservação e do uso sustentável da Amazônia Legal. O setor agropecuário, segunda maior categoria responsável pelas emissões tem também boa parte das regulamentações no âmbito do governo federal.
Astrini resume assim o papel do presidente nas questões ligadas ao clima: “Há governos que diminuem o desmatamento, outros que aumentam as áreas desmatadas tendo em mãos os mesmos instrumentos. É, portanto, uma questão de diretriz e gerenciamento político desses instrumentos, de como eles são colocados para funcionar em uma perspectiva X ou Y.”
No caso do desmatamento na região da Amazônia, os governos estaduais como o do Pará e o do Amazonas podem ter ações complementares às do governo federal porque há ali forças policiais locais que podem ajudar, por exemplo, o Ibama na repressão ao crime ambiental.
Outro poder dado aos governadores está relacionado à exploração de gás natural, um combustível fóssil que também contribui para a emissão de gases do efeito estufa. Quem for eleito para o cargo pode formular e implementar políticas estaduais para o setor e decidir se vai investir em determinados combustíveis fósseis ou em fontes renováveis de energia.
Está na jurisdição dos governos estaduais olhar especialmente para questões fundamentais relacionadas à indústria, à energia, aos resíduos (lixões) e ao transporte (urbano, público, de veículos a combustão), um dos vetores que mais expande no Brasil, em termos de emissões.
É no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas que leis voltadas à pauta climática são propostas, formuladas, debatidas, aprovadas e rejeitadas – ou engavetadas. Mas há outro papel igualmente relevante a cargo dos parlamentares: o poder fiscalizatório. Os políticos que chegam a esses postos podem criar comissões especiais e CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito), como no caso da tragédia de Brumadinho , além da tarefa de colocar pressão no Executivo, para que governos não sejam omissos em determinadas ocasiões.
O Nexo pediu a Astrini e Unterstell dicas de como identificar entre os candidatos aqueles realmente comprometidos com a pauta climática. Veja abaixo.
Ir além das promessas e buscar o histórico
Essa dica, aliás, pode servir para várias áreas, como ciência , e não apenas para a pauta climática. Pesquisar as promessas para o futuro é importante, mas o eleitor tem de olhar, principalmente, o passado dos postulantes. “É muito mais confiável um candidato que diz que vai fazer algo bom pelo meio ambiente e que já fez coisas boas pelo meio ambiente em outra ocasião do que aquele que nunca fez nada e só tem promessas eleitorais. Não adianta a pessoa ter passado oito anos no Senado ou 12 na Câmara dos Deputados, nunca ter feito nada pela agenda e dizer que agora é uma grande amiga do clima”, ressalta Astrini.
Use as redes sociais para questionar propostas
Gostou das ideias gerais de um candidato? Então, vá às redes sociais e pergunte quais propostas ele tem para responder à crise climática. “Algumas pessoas simplesmente não têm respostas”, conta Natalie Unterstell. “Essa é a primeira camada eliminatória. A segunda, para quem responde, é avaliar com cuidado a resposta porque hoje falar de clima está na moda, há um hype. Acho legal, eu fico feliz, mas a maioria dos candidatos, inclusive à Presidência, apenas passam um verniz verde, não têm propostas concretas e não estão abertos a debater ideias sobre a crise do clima.”
Atente-se às candidaturas indígenas
O secretário-executivo do Observatório do Clima chama a atenção para os nomes indígenas em disputa neste pleito. “Esses candidatos, geralmente, têm uma longa atuação em defesa da Amazônia e da mata atlântica , por exemplo. São pessoas que já faziam um trabalho de proteção. Mesmo sem mandato, elas executavam ações de forma pública.”
A Amazônia deve estar no centro do debate
De acordo com a presidente do Instituto Talanoa, candidatos a todos os cargos, de qualquer estado ou região, devem ter algum plano para a Amazônia. “Do Rio Grande do Sul ao Piauí, do deputado estadual ao senador, todos têm a responsabilidade de pensar a Amazônia, que é importante para o país inteiro. Então, tem que perguntar sobre a Amazônia e eles têm que se posicionar. O candidato pode dizer: ‘Ah, mas sou de Pernambuco’. ‘Pois é, e o que o senhor vai fazer?’ Todos somos parte do problema”.
Desconfie de discursos que incluam combustíveis fósseis na transição energética
A queima desses combustíveis – carvão mineral, gás natural e petróleo –, que são recursos naturais não-renováveis e matérias-primas para a produção de energia, aumentam a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Por isso, a discussão a respeito da substituição desses materiais por energias limpas e renováveis é urgente. “Se o candidato fala em transição energética e inclui combustível fóssil nessa mudança, seja qualquer um deles, há algo errado”, alerta Unterstell.
Os 11 concorrentes ao Palácio do Planalto têm alguma proposta relacionada ao meio ambiente, no geral. Nem todos falam especificamente sobre o clima e, sobretudo, o combate à crise climática. Marcio Astrini e Natalie Unterstell fizeram uma lista para o Nexo com tópicos do que a sociedade brasileira deve se preocupar nas eleições de 2022 (e pelos próximos quatro anos) a respeito dessa temática.
Candidatos ao Congresso
Idealizado por organizações da sociedade civil, o Painel Farol Verde permite buscar candidatos aos cargos de deputados federal e senador alinhados com as pautas do combate às mudanças climáticas, sustentabilidade ambiental e direitos socioambientais.
Legislações climáticas
No Banco de Legislações Climáticas, do site Clima de Eleição , é possível acompanhar como as leis brasileiras têm avançado nessa pauta, assim como em assuntos correlatos. A ferramenta mostra, ainda, a atuação de parlamentares nas questões climáticas.
Atuação ruralista
Desenvolvido pela Repórter Brasil, o Ruralômetro serve como um termômetro que mede o desempenho dos deputados federais no período de 2019 a 2022 em temas como meio ambiente, indígenas e trabalhadores rurais. De acordo com a página, “quanto mais alta a temperatura [apresentada], maior a boiada que o parlamentar deixou passar”.
Atuação do Executivo federal
O Política por Inteiro , projeto do Instituto Talanoa, acompanha em tempo real os sinais políticos de mudanças relevantes anunciadas ou realizadas pelo Executivo. Em parceria com a Folha de S.Paulo, a instituição monitora e analisa as ações do governo federal em temas relevantes sobre a mudança do clima e o meio ambiente.
Colaborou Caroline Souza com o gráfico.
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