Como reverter o cenário de ataques aos povos isolados
Lucas Zacari
19 de janeiro de 2023(atualizado 28/12/2023 às 21h24)Apesar de protegidos constitucionalmente, indígenas em isolamento vivem sob ameaças como o avanço da fronteira agrícola, o garimpo ilegal e a grilagem
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Foto aérea de um povo indígena isolado na Bacia Amazônica, na fronteira entre o Acre e o Peru.
Os povos indígenas isolados sofrem com ameaças e invasões em seus territórios, apesar de o artigo 231 da Constituição Federal apontar que as terras tradicionalmente ocupadas pelos povos originários são exclusivamente destinadas a eles. A expansão da fronteira agrícola, o garimpo ilegal e a grilagem são alguns dos fatores que ameaçam a existência dessas populações .
A criação do Ministério dos Povos Indígenas e a posse de Sonia Guajajara como ministra têm um valor simbólico forte e podem significar um avanço na proteção e demarcação de terras de povos isolados. O decreto que oficializou a pasta , por exemplo, aponta que a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e o CNPI (Conselho Nacional de Política Indigenista) passaram a integrar o novo ministério. Os dois órgãos foram minados durante o governo Bolsonaro.
Neste texto, o Nexo apresenta quem são os povos isolados, como eles são ameaçados, como a gestão de Jair Bolsonaro lidou com o tema e quais as demandas dessas populações para o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva .
Os povos indígenas isolados , de acordo com a Funai, são populações que, por vontade própria, decidem por não ter — ou evitar ao máximo — contato com outros grupos da sociedade, sejam não indígenas ou pertencentes a outros povos originários.
O isolamento desses grupos é relativamente recente. N ão existem registros de grupos indígenas isolados antes do processo de colonização do território brasileiro A opção pelo isolamento pode ter sido decorrente de traumas e experiências negativas que o contato com outros grupos promoveu. Doenças, mortes, violência, exploração e tomada de recursos e territórios são algumas das motivações.
É função da Funai, por meio da GIIRC (Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados) e das FPEs (Frentes de Proteção Etnoambiental), a garantia do isolamento e do modo de vida tradicional desses grupos. O contato só pode acontecer quando houver uma ameaça iminente para essa população.
De acordo com a Funai, há 115 registros de presenças de indígenas em isolamento voluntário no país, sendo somente um registro fora da Amazônia Legal – que contempla toda a região Norte e parte dos estados de Maranhão e Mato Grosso. Na área amazônica, há 28 grupos confirmados; 26 em que há referências da presença de isolados e em estudo, mas sem total comprovação; e 60 em que há a informação da existência de indígenas, mas sem estudo.
O artigo 231 da Carta Magna brasileira reconhece aos indígenas os direitos sobre as terras que tradicionalmente ocupam, “competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. A Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) — tratado do qual o Brasil é signatário — também faz referência à autodeterminação dos indígenas e o reconhecimento de suas posses.
A principal ação governamental para proteção das TIs (terras indígenas) compostas somente por povos isolados — existem isolados que vivem em TIs de não isolados — é a chamada “restrição de uso”. Com essa medida, o governo interdita a área para limitar a presença de terceiros enquanto não ocorre a demarcação dessas terras . Essa ação é realizada para assegurar a integridade física da população isolada.
Apesar das ações legais, os povos indígenas isolados sofrem constantemente com ataques e invasões aos seus territórios. Um estudo realizado pelo Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) publicado no início de janeiro de 2023 aponta que as TIs com a presença de isolados são as mais ameaçadas do bioma .
O levantamento considerou cinco fatores de risco que podem ameaçar a existência de povos isolados:desmatamento ilegal, queimadas, grilagem de terras públicas, mineração ilegal e categorias de cunho jurídico-institucional.
Entre os triênios 2015-2018 e 2018-2021 — período de análise da pesquisa —, as TIs Ituna/Itatá, no Pará, e Piripkura, em Mato Grosso, ambas em status de restrição de uso, estão entre as dez terras indígenas com mais desmatamento na Amazônia. A primeira, inclusive, teve o maior aumento absoluto entre as que têm indígenas isolados.
A TI Ituna/Itatá tem o nível mais alto de risco, de acordo com o levantamento. Houve um aumento de 441% nos focos de calor nesta região e 94% de sua área está sobreposta a de registros de CAR (Cadastro Ambiental Rural, um cadastramento de propriedades rurais), o que é um possível indicativo de ações de grilagem. Segundo uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo de dezembro de 2022, o Ministério Público Federal investiga uma organização criminosa que faz grilagem na região , com nomes do alto escalão do funcionalismo público.
A soma das categorias de risco mostra que, além da Ituna/Itatá, outras 11 terras indígenas com presença de indígenas em isolamento voluntário estão em risco alto ou muito alto de ameaça.
Antes mesmo de tomar posse, Jair Bolsonaro já demonstrava ser contra a demarcação de terras para povos indígenas. Em entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, em novembro de 2018, Bolsonaro disse que os 14% de terras indígenas demarcadas no país seriam suficientes para abarcar toda a população indígena. O ex-presidente também tinha uma visão antiquada de assimilação dos povos indígenas , ideia descartada no país desde a Constituição de 1988.
Essas duas correntes de pensamento pautaram o governo Bolsonaro. Apesar de herdar 54 demarcações de terras já julgadas no início de seu mandato, a promessa de não demarcação se confirmou e ele se tornou o primeiro presidente desde a redemocratização a não realizar nenhuma demarcação de terra durante todo o seu mandato. Segundo o jornal O Globo, também havia 129 processos em andamento antes de sua posse.
Com o argumento de desburocratizar e acabar com uma suposta influência dos governos petistas anteriores, o ex-presidente inviabilizou o funcionamento do Conselho Nacional de Políticas Indigenistas em abril de 2019. Criado por Dilma Rousseff, o órgão tinha a função de representar os povos indígenas na criação de políticas públicas.
A Funai, apesar de não ter sido encerrada, foi alvo de uma série de desmontes e ataques . Logo ao assumir, Bolsonaro reorganizou os órgãos ministeriais por meio da medida provisória nº 870. A Funai saiu da Justiça e foi para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Além disso, o setor de demarcação de terras foi deslocado para a pasta de Agricultura. Em agosto do mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal reverteu ambas as medidas .
No entanto, a gestão de Bolsonaro manteve uma postura contrária às atuações comuns da Funai. Em artigo do jornal O Estado de S.Paulo de julho de 2022, pesquisadores do Núcleo de Estudos da Burocracia da Fundação Getulio Vargas elencaram ações anti-indigenistas praticadas durante a gestão de Marcelo Xavier , presidente da Funai entre 2019 e 2022. Servidores do órgão apontaram, por exemplo, que havia barreiras para demarcação de terras e remoção de servidores responsáveis, militarização da organização e despreparo com as questões indigenistas, além de assédio moral e desmonte das condições de trabalho.
O fundador da ONG Instituto Socioambiental e ex-presidente da Funai entre 1995 e 1996, Márcio Santilli, disse ao Nexo em julho de 2022 que o órgão não estava sendo gerido como deveria: “O atual governo favorece os interesses de frentes predatórias, como a exploração mineral e a madeireira. Com isso, terras indígenas que não foram demarcadas continuam assim, e a que estão demarcadas passam a ser invadidas. Há um aumento inédito na prática de violência contra lideranças indígenas e seus apoiadores”.
Placa indica Terra Indígena Uru Eu Wau Wau, em Rondônia
Uma das ações de Bolsonaro contra os povos indígenas foi a tentativa de liberação da exploração de minérios em TIs. O projeto de lei 191/2020 permitiria que o garimpo e o uso de recursos hídricos dessas áreas seria aberto para não indígenas. O governo pediu urgência para votar o projeto na Câmara, mas ele não chegou à discussão no plenário.
A principal atuação da Funai em relação aos povos isolados durante o governo Bolsonaro foi a não renovação das “restrições de uso”. Normalmente, as limitações de entrada das TIs eram renovadas a cada três anos enquanto não havia a demarcação. A partir de 2021, muitas dessas renovações foram de apenas seis meses , o que resultou em ações judiciais.
Foi o caso de Ituna/Itatá, terra com nível mais crítico de ameaça entre as TIs. Em janeiro de 2022, a Funai emitiu uma nota alegando que não havia indícios de povos indígenas na região e, por isso, não iria renovar a restrição de uso . Também em nota, a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e o OPI (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato) apontaram que esse tipo de medida nunca havia sido tomada desde o início da política de proteção aos isolados, iniciada com a redemocratização.
Em julho, o portal Repórter Brasil mostrou que Geovanio Katukina, na época coordenador interino de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, teria ignorado evidências da presença indígena em Ituna/Itatá. Segundo a reportagem, o parecer seria favorável ao senador Zequinha Marinho (PSC-PA), dono de um projeto de decreto legislativo para encerrar a interdição no local. A assessoria do senador, por meio de nota à Repórter Brasil, disse que a atuação de Marinho visava a resolver o conflito agrário na região.
Após pedido do Ministério Público Federal e decisão da Justiça Federal do Pará, a Funai renovou a restrição por mais seis meses para que os técnicos da organização analisassem o parecer. Em junho, a Funai renovou a restrição de uso da TI Ituna/Itatá até 2025.
Ao final do mandato, em dezembro de 2022, Bolsonaro ainda publicou uma medida permitindo a exploração madeireira em terras indígenas por não indígenas, o que, segundo especialistas, feria a Constituição. A medida deveria entrar em vigor em janeiro de 2023, mas a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, anunciou que a publicação foi revogada pelo novo governo.
Após um cenário de terra arrasada na área de políticas indigenistas, a gestão do terceiro governo Lula aponta para uma mudança nas relações governamentais com os povos originários. Apesar das dificuldades orçamentárias e administrativas que a área deve enfrentar, o presidente já revogou um decreto da gestão Bolsonaro que flexibilizava as regras para o garimpo ilegal em terras indígenas. O processo de demarcação de terras também deverá ser retomado, com 13 áreas já com a documentação pronta para serem homologadas, segundo o colunista Guilherme Amado no portal Metrópoles.
Essas ações vão ao encontro de recomendações apresentadas pelo Ipam para reverter o nível de ameaça aos territórios de povos indígenas isolados. De acordo com o estudo de janeiro, são recomendadas três ações para reverter o cenário negativo:
Essas iniciativas também estiveram presentes na “Proposta de Reestruturação e Consolidação da Política Indigenista para Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato”, entregue pelo OPI (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato) à equipe de transição do governo.
A proposta, obtida pelo jornal O Globo, continha um detalhamento da negligência da gestão de Bolsonaro pelos indígenas isolados e de como o novo governo poderia reverter a situação desses grupos. Entre as sugestões do texto, havia a retomada dos processos de demarcação de terra; a concessão de poder de polícia para os servidores da Funai que protegem as terras indígenas; a qualificação desses funcionários; a proteção dos defensores do meio ambiente e melhoria nas condições de saúde dos isolados são algumas das reivindicações presentes no documento.
À época, a transição não tinha nenhum especialista em povos isolados. Dez dias depois do envio do documento, foram chamados Eliésio Marubo e Beto Marubo, da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), e Leonardo Lenin, do OPI.
A criação do Ministério dos Povos Indígenas — primeira vez em que há uma pasta dedicada exclusivamente para os povos originários — ressalta a mudança de atitude entre as gestões. A Funai e o CNPI, os dois principais órgãos indigenistas até então, saíram da pasta de Justiça e Segurança Pública e foram para o recém-criado ministério comandado por Guajajara. A Funai, inclusive, será presidida por Joênia Wapichana, primeira mulher indígena a assumir esse cargo.
A atuação pelos povos isolados não é mais única e exclusiva da Funai. O novo ministério tem agora o departamento dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. A interação entre o departamento e a Funai pode facilitar o processo de restrição de uso e de demarcação dos territórios com indígenas em isolamento voluntário.
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