Expresso

Quais são as dinâmicas do crime ambiental da Amazônia

Isadora Rupp

21 de setembro de 2024(atualizado 21/09/2024 às 23h00)

Destruição da área está diretamente ligada a atividades ilegais, diz estudo com base em operações da Polícia Federal. Relação com o tráfico de drogas é estreita 

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FOTO: Adriano Machado/Reuters - 08.ago.2024Brigadistas com uniformes amarelos apagam fogo em área de vegetação. Há muita fumaça. A câmera os mostra de longe.

Brigadistas do Ibama combatem fogo em Apuí, no Amazonas

Dos mais de 2.300 focos de incêndio registrados no Brasil na segunda-feira (16) – parte de uma  crise que se arrasta por meses – 60% estão na Amazônia, segundo dados do sistema BDQueimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Ações na região, no Pantanal e em outros biomas brasileiros estão sendo apuradas pela Polícia Federal, que abriu 52 inquéritos para investigar incêndios criminosos. 

31,5 milhões toneladas

é a quantidade de CO2 emitido entre julho e agosto de 2024 pelo fogo na floresta amazônica, segundo com cálculo do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia)

Atividades ilícitas são os grandes vetores da destruição e degradação na Amazônia Legal brasileira, mostra estudo do Instituto Igarapé.  Mineração, desmatamento ilegal e pecuária com práticas ilícitas de desmatamento são as práticas que mais geram ameaças ao bioma, de acordo com o levantamento.

Neste texto, o Nexo mostra como as atividades ilegais influenciam na destruição da Amazônia, e de que forma as redes criminosas atuam na área. 

As atividades que destroem 

A Amazônia Legal brasileira – que engloba os estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Pará, Maranhão, Amapá, Tocantins e Mato Grosso – abriga um sistema complexo de crimes ambientais e não ambientais correlatos que impactam a vida de quem mora na região, diz o estudo “Dinâmicas do ecossistema dos crimes ambientais na Amazônia”, do Instituto Igarapé. 

O levantamento, divulgado pela organização no final de agosto, analisou 144 operações da Polícia Federal em 2022, que complementam estudos anteriores do Igarapé, que se debruçaram nas ações da PF entre 2016 e 2021. 

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De acordo com os dados mapeados, há uma forte ameaça às Terras Indígenas, que são cruciais para a preservação da natureza, devido à relação recíproca estabelecida entre os indígenas e seus territórios. 

Do total de operações da PF em 2022, 69 foram em terras indígenas, o que mostra, segundo o levantamento, que a exploração ilegal nessas áreas segue como uma preocupação central, por causa da vulnerabilidade dessas regiões às ações dos criminosos. 

Segundo o estudo, quatro atividades ilícitas são os grandes vetores de  destruição e degradação ambiental na floresta Amazônica: 

  • Grilagem de terras
  • Exploração ilegal da madeira
  • Mineração ilegal de ouro
  • Pecuária com práticas ilícitas de desmatamento 

Os crimes tampouco ocorrem isoladamente: eles integram uma engrenagem que envolve fraude (em 30% das ações), lavagem de dinheiro (20%), posse ilegal de armas (18%) e crimes violentos (5%). Organizações criminosas estão envolvidas na metade de todos esses crimes. 

A conexão entre as atividades ilícitas, segundo o estudo, corrobora a hipótese de que a criminalidade ambiental na Amazônia ocorre de forma estruturada e coordenada. 

Isso exige, afirma o Igarapé, uma nova estratégia dos órgãos investigativos e de persecução penal, com a previsão de penas mais severas, “considerando que as penas para crimes ambientais previstas na legislação são relativamente brandas e permitem a realização de acordos”, diz a publicação.

FOTO: Ueslei Marcelino/Reuters - 14.jun.2024Imagem aérea mostra duas pessoas caminhando sobre áreas de vegetação cinza, queimada.

Brigadistas voluntários caminham sobre área queimada em Corumbá (MS), no Pantanal

Na atual crise dos incêndios que se alastram pela região e por outras áreas do país, houve a ampliação do debate para que a pena para incêndios criminosos seja ampliada no Brasil – a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem defendido a medida em falas públicas, e citou um projeto do senador Fabiano Contarato (PT-ES) que torna crime hediondo causar incêndios de maneira intencional.  

A senadora Leila Barros (PDT-SP), que preside  a Comissão do Meio Ambiente do Senado, protocolou na segunda-feira (16) um projeto de lei que endurece a punição: a pena passaria dos atuais dois a quatro anos de prisão e multa para seis a dez anos e multa quando o ato é cometido na vigência de estado de emergência ou em situações de desastres. 

Foco das investigações 

Com base nas operações da PF de 2022, o Igarapé detectou que ocorreu uma mudança de foco nas investigações voltadas ao combate do crime ambiental na Amazônia Legal em comparação ao período de 2016 a 2021. 

Segundo o estudo, houve um avanço no combate à agropecuária com práticas ilícitas na Amazônia Legal, com a realização de 17 operações, o maior número da série analisada.  

O fogo, por exemplo, é um traço marcante do avanço da agricultura na região, pois a prática é usada no manejo agrícola para abrir espaço para plantações e pastagens de gado, e é vantajoso para os produtores, por ser barata. Há períodos em que a prática é permitida. Desde 1°de julho, é crime usar fogo na Amazônia e no Cerrado, restrição que vai até o final de 2024. 

De acordo com o estudo, além do foco maior na agropecuária, as ações policiais também tornaram-se mais complexas, e revelaram dinâmicas criminosas transnacionais do agro. 

Um exemplo disso é a Operação Mãe Terra, realizada em maio de 2022 na cidade de Sorriso (MT), com apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A PF desmantelou um esquema de contrabando de agrotóxicos que são ilegais no Brasil, e eram usados em propriedades rurais da região

R$ 154 milhões 

foi a movimentação financeira da comercialização dos fertilizantes ilegais em Sorriso (MT) ao longo de dois anos, segundo a Polícia Federal 

“O aumento das ações de combate à agropecuária com práticas ilícitas em sua cadeia produtiva reflete a necessidade de estratégias mais robustas e integradas para coibir as atividades ilícitas na região, como o fortalecimento da fiscalização, melhoria do sistema de monitoramento e rastreabilidade da cadeia produtiva e dos fluxos financeiros ilícitos”, afirmam os pesquisadores. 

Crime ambiental e tráfico de drogas 

Do total de 144 operações da Polícia Federal analisadas pelo Instituto Igarapé, 24 delas vinculam crimes ambientais a crimes relacionados a drogas. 

Embora o número pareça pequeno, o estudo destaca que os crimes se sobrepõem e se interrelacionam na região da Amazônia legal brasileira, como plantação de maconha ou posse de drogas para consumo pessoal. 

Segundo o estudo, o vínculo entre crime ambiental e drogas se manifesta de diferentes maneiras: 

  • Indivíduos que integram facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) são cada vez mais investigados por crimes ambientais, como exploração ilegal de madeira e grilagem de terras para serem convertidas posteriormente para a agropecuária. Na origem, essas pessoas já são atuantes no tráfico de drogas, e tocam as atividades paralelamente. 
  • Há ligação entre mineração ilegal e tráfico. Em 2022, a Operação Gold Rush, realizada pela Polícia Federal, prendeu um indivíduo por tráfico de drogas. Essa prisão levou à descoberta de um esquema ilegal de comércio de ouro e lavagem de dinheiro, por meio de uma joalheria em Roraima, utilizada para encobrir a origem ilícita. Em cinco anos, foram movimentados R$ 300 milhões. 
  • Compartilhamento de logística. Em 2022, a Operação Comando, no Pará, deflagrada para investigar o uso de aeronaves no tráfico de drogas, descobriu que aviões e também caminhões e navios levavam não apenas drogas, mas ouro e madeira, frutos de extração ilegais. 

Em todas as operações mapeadas pelo Igarapé em 2022, as operações apontaram para as atividades ilegais na Amazônia em conjunto com o tráfico internacional de drogas, com conexões com o Peru, Colômbia, Paraguai e Venezuela. “É essencial ampliar a cooperação internacional. Somente com uma resposta coordenada será possível preservar a maior floresta tropical do planeta e proteger o direito das comunidades amazônicas”, diz o estudo.  

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