Coluna

Reinaldo Moraes

Burcas, plásticas, cerveja e cigarros

27 de novembro de 2015

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Estávamos diante de uma metáfora viva do mesmo conceito de liberdade de expressão intelectual e comportamental que seria, 48 horas depois, ferido a balas de fuzil

O Page Six, o New York Post e outras esquinas da internet deram, em julho último, uma notícia assaz curiosa em sua profunda desimportância, envolvendo a super modelo Gisele Bündchen e a cidade de Paris, dois ingredientes que conferem glamour a qualquer fait divers.

Acontece que num certo dia daquele mês, Gisele Bündchen, a brasileira universal, submeteu-se a uma operação plástica em Paris, acompanhada da irmã mais nova e conduzida do aeroporto pra clínica por seu motorista habitual na Cidade… desculpem, não resisto: na Cidade Luz. Até aí, nenhuma grande novidade, pois ninguém duvida de que até mesmo uma consagrada diva contemporânea está sujeita à ação do tempo e dos radicais livres. O corpo é dela, a autoimagem é dela, o dinheiro é dela, tá tudo certo.

Estaria, na verdade, não fosse o fato de que, buscando manter-se incógnita na… hm… Cidade Luz, La Bündchen se enfiou dentro de uma burca preta pra ir à clínica, deixando de fora só os pezinhos mimosos metidos em sandálias rasteirinhas e os dedos das mãos, com unhas pintadas de um vermelho forte, detalhes impensáveis numa muçulmana fundamentalista. 

Os paparazzi e caçadores de fofoca que seguiam a modelo ganharam seu dia. Aquilo era um prato cheio: em pleno Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos, uma das maiores beldades midiáticas do planeta tem a idéia de desfilar pela rua dentro de uma burca, indumentária, aliás, proibida na França, por mascarar a pessoa que vai lá dentro.

Quando as fotos de Gisele emburcada começaram a circular, a bela patroa daquele astro do futebol americano levou um coió geral do irado público francês, islâmico e não-islâmico. Já eu, que, desde a mais tenra infância, sou um velho babão, ao ver as imagens tive apenas a fantasia podólatra de me prostrar no chão, feito muçulmano no tapetinho ritual, e beijar aqueles deliciosos pezinhos nus que escapavam por debaixo do pano preto da burca.

Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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