Coluna

Reinaldo Moraes

Vida animal: fatos e histórias

19 de fevereiro de 2016

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O ser humano é um dos raros mamíferos que pratica a monogamia; mas e se nossa disposição fosse outra?

Já ouviram falar no rato das pradarias? Ele vive lá nos Estados Unidos. É o único rato que só tem uma parceira, e a parceira só um parceiro, por toda a vida. O rato das pradaria está entre os 3% de mamíferos monogâmicos que existem na natureza, seres humanos inclusos, dizem os biocientistas. Prum rato monogâmico, o casamento é pra sempre, e eles nunca são pegos pulando cerca. Ou são muito habilidosos, os danados, ou realmente não pulam cerca. Parece que o castor também é assim. Vai daí que, se vocês forem a uma festa de mamíferos, já sabem: só 3% daquela turma ali é fiel no casamento. Os outros 97% tão pegando geral, machos e fêmeas igualmente. E sem grandes problemas morais ou de qualquer outro tipo.

Já o rato de Montana, apesar de primo do rato das pradarias, é um típico rato poligâmico. Os machos alfa vivem como ídolos de rock no apogeu da carreira, cercados de groupíes, roadies e tietes alucinadas. São conclusões a que chegaram os doutores Tom Insel e Larry Young, da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, que ficaram íntimos dos dois tipos de ratos americanos. Os caras conseguiram isolar e extrair os genes da monogamia do rato das pradarias e injetá-los nuns ratos e ratazanas de Montana que passavam distraídos pelo laboratório a caminho do motel mais próximo pruma mais do que provável surubinha.

E não é que os ratos de Montana largaram aquela vida louca de baladas poligâmicas e passaram a namorar firme? E sexo, só depois do casamento. Acasalados para todo o sempre, na saúde e na doença, na poupança ou no cheque especial, tiveram muitos ratinhos, herdeiros eles também do gene monogâmico, revelando-se também pais extremados. Os machos nunca mais correram atrás de um rabo de saia. E as fêmeas não aceitaram mais convites prum chopinho borbulhante de segundas intenções pra depois do expediente. É o que afiançam Tom Insel e Larry Young, que procuram agora financiamento pra realizar o experimento inverso, injetando os genes poligâmicos do rato de Montana nos monogâmicos ratinhos das pradarias. A pasmaceira doméstica nas pradarias pode estar com os dias contados.

(Arpejo de harpa indicando passagem do tempo.)

Algum tempo depois das pesquisas relatadas acima, um marido chega bêbado em casa, num desalinho de pantomima, com beijos batonados espalhados pela cara e colarinho. Tira roupa e sapatos na sala, sentado num sofá pra não cair. Fica só de cueca samba-canção vintage, onde se vêem outras nítidas marcas de batom. As roupas dele ficam jogadas pelo chão, poltronas e sofás. Se reparasse bem, veria que há outras roupas ali também, de vários homens e mulheres, inclusive um uniforme azul-marinho de polícia. Há também copos, taças e garrafas de vinho e cerveja vazias pelo chão e mesas. Mas o marido não tem condições de reparar bem em nada disso nessa hora.

Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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