Coluna

Reinaldo Moraes

Brasília: sonho ou pesadelo?

19 de maio de 2016

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Sem esquinas e sem botequins, não contem comigo como morador daquela utopia fracassada

O compositor e cantor Billy Blanco, paraense por nascimento e carioca por convicção, é o consagrado autor de clássicos do samba e da bossa-nova, como “Estatutos da gafieira” (“Na gafieira segue o baile normalmente / com muita gente dando volta no salão / Tudo vai bem, mas eis, porém, que, de repente, / um pé sumiu e alguém de cara foi ao chão”…) e “Tereza da praia” (“Tereza da praia não é de ninguém / não pode ser minha nem tua também”…), entre uns 300 outros títulos gravados por grandes intérpretes e por ele mesmo.

Um desses, entre os menos conhecidos, é um dos meus preferidos de todos os termpos: “Não vou pra Brasília”, sambinha-bossa delicioso, gravado pela primeira vez em 1957 pelo conjunto vocal Os cariocas. Naquele ano, JK, o “presidente bossa-nova”, como o chamava o cantor e compositor Juca Chaves, já estava de mangas arregaçadas para construir Brasília, ousadia utópico-modernista tão louvada quão criticada desde então.

Billy Blanco, indiferente ao vasto buxixo que a novidade provocara, sentou-se de frente pro mar do Rio de Janeiro e saiu-se com essa: “Não vou, não vou pra Brasília / nem eu nem minha família / mesmo que seja / pra ficar cheio da grana / A vida não se compara / mesmo difícil, tão cara / eu caio duro / mas fico em Copacabana”. (Vale muito a pena acionar o youtube pra ouvir essa pérola, de preferência na voz do próprio Billy acompanhando-se ao violão.)

“Não vou pra Brasília” não saía do meu FM interno quando pisei no último fim de semana na capital federal pra entrevistar o romancista João Almino, também diplomata e cientista político, que mora lá atualmente. Foi mais uma etapa da série de TV “Viagem de bolso”, sobre literatura brasileira contemporânea, bolada pela diretora Lia Kulakauskas, que ostenta no sobrenome mais K’s do que o Jucelino Kubitschek. Tanto K combina à perfeição com uma cidade que pareceria estrangeira, não estivesse povoada de uma gente tão claramente brasileira, quase toda vinda de outras partes do Brasil.

Brasília, de todo modo, é uma cidade com grife, levando as assinaturas do urbanista Lúcio Costa, do arquiteto Oscar Niemeyer e do paisagista Burle Marx. E vale lembrar que a toda hora a gente topa com os belíssimos azulejos desenhados por Athos Bulcão, em alguns prédios das superquadras e num bom número de edifícios públicos e igrejas. Duas outras assinaturas têm sua importância aqui: a dos engenheiros Israel Pinheiro e Bernardo Sayão, também políticos, que desempenharam o papel de empreiteiros da grande obra, capitaneando uma legião de candangos anônimos. A saga da construção física de Brasília, aliás, é o pano de fundo do excelente romance “Cidade livre” do João Almino, que nasceu em Mossoró, no Rio Grande do Norte, mas tem passado a maior parte da sua vida adulta ocupando postos diplomáticos no exterior, tendo Brasília como referência domiciliar quando volta ao Brasil para temporadas de trabalho no palácio do Itamaraty.

Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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