Coluna

Lilia Schwarcz

No passo do caranguejo: a crise da Uerj é de todos nós

10 de abril de 2017

Compartilhe

A crise da Uerj não é apenas mais um problema dentre uma série maior e indiscriminada. Ela traz sérias implicações para o ensino superior brasileiro, para o desenvolvimento do país e reflete uma concepção falaciosa sobre o ensino e a educação

Foi o bardo Tom  Jobim quem nos brindou com uma das melhores definições do nosso país: “o Brasil não é para principiantes”. Claro que há muito de efeito na frase do maestro; afinal, nenhuma nação estaria “à prova de principiantes”, no sentido de se deixar ler e compreender facilmente.

Cada país guarda as suas linguagens, os seus segredos, as suas armadilhas, e por isso dominar um idioma significa muito mais do que apenas conhecer suas regras gramaticais. Por outro lado, sentir-se estrangeiro é, de alguma forma, entender como fora de seu país há situações, expressões, piadas, eventos do dia a dia que somos incapazes de traduzir ou incluir em nosso vocabulário social.

Mas há momentos em que o Brasil cabe totalmente na definição de Tom Jobim. Aliás, temos vivido a boutade em toda a sua plenitude. Por exemplo, faz tempo que não há razão para seguir seriados de TV por aqui; afinal, o jornal diário oferece notícias muito mais aventurosas do que aquelas que procuramos nos filmes de suspense. Se fosse apenas tentar listar a quantidade de sustos que o cotidiano tem nos pregado, por certo me perderia, tal a oferta, variedade e qualidade do cardápio.

Não obstante, há uma situação que tem me parecido particularmente surreal: aquela vivenciada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A Uerj é a quinta maior universidade do Brasil, conta com mais de 43 mil alunos – 28 mil na graduação presencial, 7 mil na graduação à distância, 4,5 mil no mestrado e no doutorado, 2,5 mil na pós-graduação lato sensu, e 1,1 mil no ensino fundamental e médio em seu Colégio de Aplicação. Para completar esse perfil, já em si robusto e consolidado, falta mencionar o Hospital Universitário Pedro Ernesto (o Hupe) que atende a comunidade fluminense de forma ampla e indiscriminada. É bom lembrar, ainda, que, atenta à sua função social, essa Universidade foi pioneira na implementação de cotas sociais para o ensino superior.

Pois bem, em tempos de crise como esses que experimentamos, os primeiros setores a serem afetados (ao menos na lógica da atual administração pública) são a saúde e a educação. Portanto, não se trata de mera coincidência ou dado aleatório o fato de que, desde o ano de 2016, o Estado do Rio de Janeiro esteja repassando menos de 20% dos recursos necessários para a manutenção da entidade.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Navegue por temas