Coluna

Humberto Laudares

Melancias, corporações e reformas

28 de junho de 2017

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Independentemente de qualquer coisa, os números e as evidências anedóticas no Brasil falam por si: são muitos cargos a serviço do ‘toma lá, dá cá’ da política

O presidente Michel Temer está fazendo um trabalho pedagógico para a população — sem saber, claro. Ao exonerar imediatamente todos os aliados de parlamentares que votam contra sua agenda no Congresso, o presidente mostra para o cidadão comum como a velha política funciona. Ao fazer isso, também deixa claro que o Estado brasileiro precisa se reformar para servir melhor os cidadãos.

Hélio Gambiarra, também conhecido como senador Hélio José (PMDB-DF), ganhou espaço no noticiário e na internet por dois eventos específicos. Um foi quando sua prótese dentária caiu ao discursar na frente das câmaras. O outro foi registrado em uma gravação que vazou em que o senador afirmou a servidores federais da Secretaria de Patrimônio da União (a SPU) do Ministério do Planejamento: “Isso aqui é nosso. Isso aqui eu ponho quem eu quiser, a melancia que eu quiser aqui, eu vou colocar”. Pois bem, emplacou seu ex-assessor Francisco Nilo Gonsalves Júnior como superintende da SPU. Temer assinou embaixo.

Na semana passada, o senador Gambiarra votou contra a reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Sociais. No dia seguinte, o presidente Temer colocou a “melancia” pra correr. Outros políticos também perderam suas “melancias” após votações contrárias à diretriz do governo.

O mais estranho nisso tudo não é o governo demitir aliados de congressistas infiéis, ou mesmo o fato de haver tais indicações. O chocante é ver de forma tão desnuda a quantidade de cargos que são preenchidos por indicação política, sendo que muitos deles por pessoas com qualificação duvidosa para ocupar aquele cargo.

Os números agregados são ainda mais assustadores. O governo federal conta com cerca de 22,9 mil funcionários ocupando cargos comissionados, sendo que os cargos mais altos (DAS 5 e 6) representam 6% desse valor (1.330 cargos). Já países como os Estados Unidos contam com um total de aproximadamente 4.000 cargos de comissão no total, enquanto os países europeus têm entre 300 e 500 cargos.

Humberto Laudaresé especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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