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Esta semana fui apresentada por uma pessoa querida a Chloé Calmon. Campeã mundial de surf, a jovem desenvolve um estilo que consiste em pegar ondas caminhando, ou melhor, divando em sua prancha . O encantamento com o trabalho dessa carioca foi tão grande que, além de me tornar sua seguidora, decidi fazer uma aula do esporte. De tão incrível, a experiência foi incorporada à minha rotina, que agora consiste em, duas vezes por semana, chegar à praia às seis da manhã.
No primeiro dia, enquanto estava de caloura no mar, entre remadas, levantadas e quedas, lembrei de uma frase de Angela Davis da qual gosto muito: “precisamos aprender a nos erguer enquanto subimos”. Nem nos meus melhores dias pensei que fosse possível associar a cultura do surf, hegemonicamente branca, ao pensamento da filósofa negra no livro Mulheres, Cultura e Política . Mas funcionou.
Inicialmente fazendo associações ligadas a razões positivas, sequer desconfiava que o mar viraria, de forma tão brusca e avassaladora. No dia seguinte à aula experimental de surf, 14 de março, vi-me surpreendida, enquanto preparava o jantar, pela notícia da execução de Marielle Franco no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Pensando na história da vereadora, por quem nutria grande admiração, uma pergunta me veio à cabeça: quais são os desafios de nos erguermosdurante a subida?
Para responder a essa pergunta, entrei em contato com fragmentos de memória ligados às minhas experiências de educadora. Recorrentemente percorrendo escolas públicas cariocas, é inquietante ouvir a quantidade de crianças, meninas negras entre 7 e 13 anos, que dizem que seu sonho é serem trabalhadoras domésticas. Este tipo de narrativa, na versão masculina, reconfigurado para o desejo de ingressar no tráfico de drogas, revela dois aspectos. O primeiro, muito bem discutido no livro Entre o mundo e eu , do jornalista afro-americano Ta-Nehisi Coates, é que “não há tempo para a infância de meninas e meninos negros”. Entretanto, neste momento, em que estamos acometidos por um choque coletivo diante de tamanha violência, gostaria de olhar para essa tragédia anunciada a partir de um segundo aspecto, que considero muito libertador: o trabalho embutido no ato de erguer-se enquanto se sobe e a força que tal movimento tem de inspirar e romper destinos esperados.
De forma absolutamente original, Marielle Franco divou na prancha, desenvolvendo um estilo próprio de ser parlamentar. Cria da favela da Maré, ela formou-se em ciências sociais na PUC-Rio e tornou-se mestra em administração pública pela Universidade Federal Fluminense. Sagrou-se vereadora com mais de 46 mil votos, em uma campanha que trazia como slogan: “Mulher, Negra, Mãe, Favelada”. Se acionar essas identidades não é inédito nos pleitos (haja vista políticas como a ex-senadora Benedita da Silva e a ex-deputada Jurema Batista terem mobilizado referenciais próximos), há de se observar que o caso de Marielle guarda particularidades que revelam sua forma original de construção da carreira política. Além disso, ainda na campanha, assessorada por profissionais como Julia Igrejas, a futura parlamentar foi hábil o suficiente para conduzir seu lugar de fala pela porta da frente de redutos da classe média e alta carioca, nos quais se encontra parcela significativa de seu eleitorado.
Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.
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