Coluna
Giovana Xavier
‘Vocês vieram para o grupo de autoajuda de usuárias de drogas?’
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Este texto inicia-se durante um voo até os EUA para realizar uma palestra em Harvard University no seminário “ Afrodescendentes no Brasil: realizações, desafios presentes e perspectivas para o futuro ”, que ocorreu nos dias 27 e 28 de abril. Organizado pelos professores Sidney Chalhoub e Ana Flavia Magalhães Pinto no âmbito do Afro-Latin American Research Institute, no Hutchins Center, o evento constitui-se em um marco, pois reuniu mais de 30 intelectuais brasileiros, na sua maioria negros, para discutir a conjuntura política do país assim como elaborar propostas que fortaleçam a pauta da equidade racial na Década — proclamada pela ONU — dos Afrodescendentes.
Voltar aos EUA como professora universitária dez anos depois de meu estágio de doutorado sanduíche, supervisionado pela historiadora Barbara Weinstein, na New York University, provocou muitas revoluções internas. Tais revoluções me fazem refletir sobre a importância de levarmos para um público mais amplo o backstage da academia. Para isso, tendo como referência aspectos relacionados à minha rotina docente assim como as narrativas de estudantes de graduação que participam do curso Intelectuais Negras pergunto: quem tem o direito de ser reconhecido como intelectual no Brasil? Como as intersecções de gênero, raça e classe colocam-se no espaço acadêmico e na produção científica?
Para mulheres negras, ocupar o espaço acadêmico é um processo complexo porque desestabiliza o imaginário nacional de “nascidas para servir”, materializado em estatísticas como as do trabalho doméstico, no qual mais de 80% das trabalhadoras são negras. Já perdi a conta de quanto tempo costumo gastar pesquisando artigos, livros, documentários e criando metodologias que contribuam para que as estudantes despertem a percepção de que são intelectuais, no sentido de acadêmicas em formação.
No primeiro dia de aula do curso Intelectuais Negras, peço que todas que se sintam à vontade coloquem em prática um dos principais conceitos do feminismo negro: “autonomeação”, primorosamente discutido por Djamila Ribeiro. Para se apresentar ao restante da turma, solicito que vocalizem “Eu sou uma intelectual negra porque…”. Esse é um momento de muita emoção, com abraços, lágrimas, lenços de papel circulando pela sala. Por mais que brotem lindas narrativas sobre avós e mães repletas de beleza, força e inteligência, a potência dessas mulheres vai perdendo espaço para “Mas professora…” “eu sou a primeira da família a entrar na universidade”. “Minha mãe é empregada doméstica”. “Não conheço meu pai”. “Minha avó não sabe ler”. “Não sei falar inglês”. “Tenho muita dificuldade de escrever”. “Nunca viajei para fora”. “Na minha casa não tem biblioteca”. “Não consigo ler lá em casa porque tem muito barulho”. “O professor disse que eu vou ser balconista”.
No meu caso, o fato de ser professora universitária reconfigura os limites para reconhecimento de minha intelectualidade em outras bases. Lembro de quatro episódios marcantes envolvendo docentes brancas que ilustram essa diferenciação. O primeiro foi quando meu pedido de credenciamento em um dos programas de pós-graduação em que atuo foi aprovado. Ganhei parabéns de uma colega, seguido de um “ainda bem, pois existe uma demanda reprimida de estudantes que procuram o programa para estudar relações raciais”. O segundo foi durante a realização do concurso público no qual me tornei professora da UFRJ. A banca indagava-me: “Excelente seu currículo, mas do que mais você sabe falar além de reeducação das relações raciais?” Já o terceiro, ocorreu em uma conferência realizada na Faculdade de Direito da UFRJ. Uma professora comentava sobre sua disponibilidade em orientar os trabalhos de estudantes negras, rotineiramente desqualificadas em seus propósitos acadêmicos. A doutora explicava “como eu não sou especialista em raça sempre peço ‘ajuda’ a uma colega negra de outra universidade que trabalha com ‘estas’ questões para orientar ‘minhas’ alunas”. Por fim, a última história refere-se à “abordagem” de um funcionário da universidade. Numa noite em que realizamos o Intelectuais Negras Diálogos, encontro que reúne em torno de 150 mulheres negras para debater a produção de intelectuais negras, o profissional perguntou-me: “vocês estão indo para o grupo de autoajuda de usuárias de drogas?” (sim, escutam-se coisas como essa e até piores nas universidades públicas).
Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.
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