Coluna

Denis R. Burgierman

A plastificação do mundo, por dentro e por fora de nós

23 de maio de 2018

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Parecia mágica. O que não ocorreu a ninguém é que indestrutibilidade não é um atributo assim tão desejável, se você for pensar bem nas consequências.

A notícia, dada um século e meio atrás, era tão boa que parecia um sonho realizado: a descoberta de um material quase mágico, infinitamente moldável, indestrutível. Ele foi apresentado ao mundo em 1862, na Grande Exibição Internacional de Londres, com o nome de Parkesine, e faturou uma medalha de bronze no evento. Era celebrado inclusive por amantes da natureza, até porque podia ser misturado a pigmento e usado na fabricação das teclas brancas dos pianos, em substituição a dentes arrancados de elefantes abatidos. O Parkesine foi o primeiro plástico feito pelo homem, a partir da queima da celulose das plantas.

Mas a mágica mesmo aconteceu às margens do século 20, quando se inventou um plástico que não era feito de plantas: era produzido a partir do nada. Quer dizer, não exatamente do nada, mas quase: era feito de gases que evaporam no processo de queima para produzir gasolina a partir do petróleo e que, não fossem recolhidos, escapariam pela chaminé. Com reações químicas, esses gases são liquefeitos numa pasta quente que, quando esfria, endurece, e pode ter a cor e a forma que se desejar. Um material prático e resistente a um custo ínfimo, para uma humanidade que por milênios suou a camisa para obter da natureza algo para construir suas coisas. Quer melhor notícia que essa?

O que não ocorreu a ninguém naquela época é que indestrutibilidade não é um atributo assim tão desejável, se você for pensar bem nas consequências. Será que o sachê de ketchup devia mesmo durar para sempre? A embalagem da bala do Uber, o filtro dentro da bituca do cigarro, até mesmo a purpurina da fantasia, ou as bolinhas esfoliantes misturadas à pasta de dente? Essas coisas todas, que tanta gente descarta sem pensar, vão existir na Terra por milênios.

Eu, você e os outros 7 bilhões de nós cobrimos a Terra de pedacinhos de plástico todos os dias. E aí o planeta coloca para funcionar seu fantástico sistema autolimpante: ele é enxaguado pelas chuvas, que escorrem em rios terra abaixo até chegar aos oceanos, carregando consigo toneladas de eterno plástico.

Outro dia assisti ao recente documentário Blue , por aqui traduzido como “Triste Oceano”, um relato devastador da situação atual da parte azul da Terra. O filme acompanha, entre outros personagens, a rotina da bióloga Jennifer Lavers, que viaja de uma ilha a outra no Pacífico capturando aves marinhas em seus ninhos, enfiando um canudo em suas goelas, e bombeando água até o bichinho vomitar. No líquido regurgitado invariavelmente há dezenas, às vezes centenas de pedacinhos de tampa de caneta bic, buchas de segurar parafuso, tampinhas de garrafa de água e outras indícios da presença humana na Terra. Trata-se de uma tentativa desesperada de Lavers de salvar a vida de aves que, de outra maneira, morreriam de hemorragia interna e falta de nutrientes. É tudo plástico varrido dos continentes pelos grandes rios que correm nas redondezas das cidades, principalmente as do mundo subdesenvolvido (o rio Amazonas é o sétimo que mais carrega plástico do mundo, numa lista dominada pela China).

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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