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Giovana Xavier

Cortes sem fronteiras? O absurdo da diminuição das verbas de pesquisa no Brasil

07 de agosto de 2018

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As descobertas científicas são conduzidas por seres humanos. Pessoas, com destaque para o número crescente de mulheres e negros, que pagam aluguel, se alimentam, sustentam famílias com bolsas de pesquisa

A primeira imagem que me chegou das redes sociais ontem foi a de uma jovem se despedindo de sua família. Ela foi minha estudante na UFRJ em 2015. Agora está de partida para a França. Feliz na fotografia, diretamente do saguão do Aeroporto Internacional do Galeão, ela agradece à mãe, aos amigos e familiares — em português e inglês — por terem acreditado nela. A amiga brasileira, recém-chegada do mesmo país, onde também estudou, é a primeira a deixar seu comentário: “Aproveita cada segundo. Vai com a certeza de que vai ser uma baita jornada de autoconhecimento”.

Ao longo dos anos, acompanhei, por meio de imagens e textos, várias histórias como a dessas duas meninas que, como universitárias, tiveram a oportunidade de morar no exterior. Biografias de jovens que, devido a programas relacionados à educação, à ciência e à tecnologia, tais quais Ciência Sem Fronteiras, Bolsa Sanduíche, entre outros, consagram-se como as primeiras das famílias a obterem um diploma universitário na graduação e na pós. E assim transformam as suas vidas e a de muitas pessoas.

Dias antes de a moça alçar voo para uma das experiências mais importantes da sua vida, o Conselho Superior da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) publicou nota preocupante . O documento chama a atenção para o seguinte fato: se o orçamento do governo federal para 2019 não for alterado, 200 mil bolsas de pesquisa serão suspensas. Milhares de projetos de formação, programas de cooperação internacional, desenvolvimento de vacinas, técnicas agrícolas e outros avanços relacionados à ciência e à inovação serão interrompidos. Conforme alertado por colegas como Renato Janine Ribeiro , o problema é grande a ponto de o documento ser assinado pelo presidente da Capes , um representante nomeado pelo governo e apoiado por conselheiros, integrantes do alto escalão governamental. O que isso quer dizer? Que não é intriga da oposição. Estamos falando de um medo interno. Que vem do próprio governo.

Devido à precariedade na qual trabalhamos, não me surpreendi com a notícia, mas senti tristeza e revolta. Como professora de uma universidade pública, em transformação, e repleta de contradições, experimento há anos os impactos que as novas gerações provocam na produção científica. Com agendas de pesquisa inovadoras, esses “novos sujeitos” contribuem para democratizar o sentido do que é ser acadêmico no Brasil, incomodando os “sonos injustos”, como diria Conceição Evaristo.

Se quisermos fazer valer um projeto democrático, que passa por estudar, fazer pesquisa e formar profissionais com verba pública, necessitamos urgentemente, lidar com esse incômodo. Considerando que a universidade é o principal espaço destinado à produção científica, necessitamos olhar para quem está dentro dela e parar com essa mania arrogante de tratar a ciência como algo “neutro”, distanciado da realidade de quem a produz.

Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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