Coluna
Giovana Xavier
A grafia-graveto de Conceição Evaristo e o incêndio do Museu Nacional
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30 de agosto de 2018. As redes sociais acordaram em polvorosa. Contagem regressiva para a votação que se realizaria na Academia Brasileira de Letras. Estava reservado para as 16h o anúncio do nome da pessoa eleita para ocupar a cadeira número sete da instituição. Essas primeiras linhas já revelam algo novo, inédito na história do Brasil. A eleição para se tornar “imortal”, usualmente restrita aos membros da ABL, com sua política de aliados e apadrinhamentos, transformou-se em amplo debate público, envolvendo diversos agentes: mídia, movimentos sociais, universidades, escolas, mercado editorial, redes sociais.
Esse novo cenário, impensável há poucos anos, ganhou força por meio das mobilizações para a candidatura da escritora brasileira Conceição Evaristo à vaga. Disparado por um abaixo-assinado com milhares de assinaturas, além de muitos posicionamentos públicos em defesa do nome da autora como o mais adequado, o processo trouxe, de novo à tona, discussões sobre conservadorismo, elitismo, machismo e racismo na cultura do país.
Em excelente texto publicado no Intercept Brasil, podemos acompanhar todo o debate desde a mobilização à candidatura, passando pelas expectativas patriarcais de discrição e reserva por parte dos membros da ABL. Também é possível mapear bastidores e desfechos que culminaram na eleição do cineasta Cacá Diegues para a vaga. De 35 votos, 22 ficaram com o cineasta, 11 com o colecionador Pedro Côrrea do Lago e um com Conceição Evaristo. Distanciando-me de uma perspectiva que reduz a problemática aos mandos e desmandos da Academia, direciono meu texto para iluminar a participação de mulheres negras na história do país de formas criativas e potentes, através de uma pergunta central:
“O que levaria determinadas mulheres, nascidas e criadas em ambientes não letrados e, quando muito, semialfabetizados, a romperem com a passividade da leitura e buscarem o movimento da escrita?”
Feita por Conceição Evaristo esta indagação norteia meu trabalho e minhas reflexões como professora universitária e coordenadora do Grupo Intelectuais Negras UFRJ. É a partir dela que ressalto pontos relacionados à candidatura da vencedora do Prêmio Jabuti à ABL e que considero vitoriosos.
Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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