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Giovana Xavier

Tornei-me o que eu mais temia: uma colunista negra que só fala de racismo

17 de setembro de 2018

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Não consigo não falar dessa estrutura que não me pertence, mas que afeta o meu trabalho e o de todas as pessoas negras do Brasil

Lembro até hoje do dia em que recebi uma ligação do José Orenstein. Era uma tarde de segunda-feira. Eu já havia colaborado com oNexo, sendo entrevistada como historiadora . Essa participação, na qual pude, através de cinco perguntas, refletir sobre as minhas agendas acadêmicas foi um divisor de águas na minha trajetória. Na ligação, meu futuro editor foi direto ao ponto. Falou-me do desejo do jornal de me ter integrando sua equipe de colunistas. Embora em alguma medida esse interesse fosse previsível, para mim, é sempre impactante ser convidada para ocupar espaços que não costumam ser pensados para mulheres negras.

Evito dizer que convites como esse são surpreendentes. Afinal preencho todos os requisitos: sou doutora, competente, comprometida com a educação. E de quebra: sou mãe, possuo milhares de seguidores nas redes sociais que acreditam no meu trabalho, pego ondas, publiquei livros, danço, faço yoga, frequento feira orgânica. No país que deveria tratar o racismo e seus efeitos como problemas de saúde e crimes a serem combatidos, vivo impactada com o um lugar que ocupo por direito.

Bom, voltando ao telefonema. Lembro que foi o próprio Zé quem me ofereceu uns dias para pensar. Esse tempo foi ótimo. Por quê? Porque como mulheres negras possuímos diversas histórias de preterimentos e desqualificações em nossas trajetórias profissionais. Isso faz com que aceitemos de imediato certas oportunidades. Devido ao racismo e ao machismo somos levadas a considerar imperdíveis convites que representam o básico: respeito e valorização da pessoa e do que Ela faz.

Em diversos casos, esse sim instantâneo às oportunidades “imperdíveis” nos criam muitos problemas. Quando paramos para pensar, percebemos que ganhamos menos, trabalhamos mais, as expectativas em torno dos nossos resultados são absurdamente maiores. Tudo isso tenho aprendido nesse intenso processo de reconhecimento profissional.

De volta ao convite, após conversar com amigas queridas e experientes, decidi aceitá-lo. Entrei em contato com Zé para falar-lhe a boa nova. Lembro que quando iniciei o papo estava obstinada por um aspecto. “Aceito. Mas não quero ocupar o lugar da colunista negra, que em sendo a única, vai se tornar a porta voz oficial e exclusiva da pauta racismo no Brasil dentro do jornal”. Ele, generosamente, conversou comigo a respeito. Tempos depois, brotou desse contra-desejo meu texto inaugural: “ Que tal falar do que não sei? ” Já nos primeiros instantes, após a esperada estreia como colunista, minha missão mostrou-se maior do que o previsto. Um dos leitores deixou assim registrada suas impressões sobre a coluna:

Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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