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“Ela sabia que os cientistas dos brancos investigavam as coisas para entender como funcionavam. O movimento das estrelas pelo céu noturno, a cooperação dos humores no sangue, a temperatura necessária para uma boa colheita de algodão. Ajarry fez ciência com seu próprio corpo e acumulou observações. Cada coisa tinha um valor, e, à medida que o valor mudava, tudo o mais mudava também. Uma cabaça quebrada valia menos do que uma que ainda pudesse armazenar água, um anzol que segurava o bagre era mais valorizado do que um que deixasse escapar a isca. Na América o estranho é que as pessoas eram coisas”.
(Ajarry em ” Underground Railroad: os caminhos para a liberdade “, de Colen Whitehead)
Noite de sexta-feira na Lapa, centro do Rio. Na sede do memorável Grupo de Teatro Tá na Rua , o colorido das araras, repletas de figurinos lúdicos, as penteadeiras com luzes e maquiagens em diversos tons, as janelas com venezianas que revelam os tempos de outrora transformam-se em moldura. No centro da arte-viva, muitas mulheres. Ostentando sutiãs, tops, microshorts, correntinhas na cintura, elas revezam pés e joelhos em busca de um objetivo comum: aprender a rebolar, dançando funk. Nos intensos atos de subir e descer, purpurinas, estrelinhas e confetes, que antes ornavam o chão, grudam-se aos corpos, que se movimentam durante 90 minutos do eletrizante encontro, ministrado por Taisa Machado .
Ao autonomear-se pelos lugares de fala de autodidata e pesquisadora de ritmos, como o baikoko e odancehall, a jovem, favelada do Complexo do Chapadão no Rio de Janeiro, coloca-nos, de forma criativa, diante do que aprendemos, desde muito cedo, a enxergar como impossibilidade, surpresa ou problema. Mulheres pobres são sujeitas com vontades próprias, produtoras de saberes e donas de seus corpos. Essa afirmação, colocada em prática pela eleição inédita de uma presidenta mulher, pela multiplicação de movimentos em prol da liberdade sexual, de gênero, dos direitos trabalhistas e reprodutivos entre mães e filhas das classes trabalhadoras, tem despertado a ofensiva ultraconservadora contra a democracia no Brasil.
No caso do funk e do papel feminino, as conquistas alcançadas por mulheres como MC Carol, Tati Quebra-Barraco e a própria Taisa, chefona do AfroFunk, são exemplos que se contrapõem à cultura patriarcal, que incute em nossas mentes a ideia de que usar a bunda é um artifício para mulheres “burras”, que não sabem usar seus cérebros. Essa cisão entre corpo e mente é uma política de controle que aparece muito bem narrada nos escritos da pedagoga bell hooks sobre a dificuldade que mulheres negras têm de se autonomearem e serem reconhecidas como intelectuais. Figura também no pensamento da historiadora Silvia Federich , que analisa os impactos do capitalismo na autonomia das mulheres, na relação que estabelecem com seus corpos, na vida comunitária, no acesso à terra, nos conhecimentos sobre a natureza.
Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.
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