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Você já despertou um dia assustado, pensando que era tudo sonho e, quando o despertador tocou, pela segunda vez, se deu conta de que era tudo verdade? Pois aposto que teve muito brasileiro que acordou ressacado como eu depois do segundo turno das eleições, e assim continua.
E não há aspirina que alivie a dor de cabeça ou Plasil que diminua o enjoo dos pensamentos contraditórios. De um lado, é preciso reconhecer que Jair Messias Bolsonaro foi eleito pelas urnas e pelo voto soberano do povo. Ganhar ou perder, afinal, faz parte do jogo democrático. De outro lado, e levando em conta a performance do presidente eleito durante seus 27 anos como deputado federal, é necessário refletir sobre a qualidade e a experiência de democracia que ele há de propor.
E se “os inícios” costumam ser suaves, dessa vez o presidente eleito chegou chegando. Foram duas as mensagens que endereçou aos brasileiros; primeiro falou a seus aliados através das mídias sociais, e só depois para a nação.
No primeiro discurso, Jair Bolsonaro se mostrou mais relaxado e, com suas frases curtas, cortadas, e repletas de palavras de ordem (todas de imediata compreensão) falou de improviso e de forma muito categórica, mencionando seus temas de predileção: acusou a imprensa e a esquerda. Já no segundo caso, adiou sua manifestação para dar lugar a uma oração (a despeito do Brasil ser um Estado laico), colocou os óculos e pediu licença para ler um texto onde as três palavras mais repetidas foram liberdade, democracia e constituição.
Nada mais simbólico do que esses dois discursos, como se correspondessem às duas faces de Jano, cada uma olhando para uma direção oposta: uma acena para o populismo autoritário, a outra para um projeto democrático. Em comum, as duas aparições guardaram o mesmo tom ligeiramente elevado que o presidente eleito costuma usar, e que lembra uma espécie de admoestação. Bolsonaro soava como um pai que falava à sua família, acariciando os filhos aliados e ameaçando aqueles mais revoltos. Além do mais, ao evocar Deus, tantas vezes, fazia sua preleção soar como uma dádiva; quase uma predestinação muito além dos homens e de seus valores mesquinhos.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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