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No dia 1º de janeiro de 2019, após uma tarde de muita alegria e brincadeira na casa de amigos, Peri despediu-se de mim da seguinte forma: “tchau, mamãe, bom surf em Itacaré!”. O fato da frase ter sido acompanhada por sorriso nos lábios e um forte abraço emocionou-me. Como uma mãe rotineiramente em trânsito, aprendi a cultivar o hábito de sempre compartilhar com meu filho os destinos e propósitos de cada um dos meus deslocamentos. Sua excelente aceitação à viagem de férias da mãe acalmou meu coração, martirizado por pensamentos diversos: como conseguirei ficar longe do meu filho por dez dias? Como ele se sentirá? E, ainda que tenha certeza que esta é uma pauta exclusivamente familiar, em sendo mulher a gente também se preocupa com o clássico “o que os outros vão pensar?”.
Arrumar as malas e conseguir chegar à cidade do surf teve um gosto de libertação. A aquisição de uma liberdade que leva a pensar nos avanços relacionados à criação de novos padrões de maternidade. Um dos maiores ganhos dessa inovação é a possibilidade de desnaturalizar a culpa materna. Um processo baseado na tomada de consciência e no aprimoramento de práticas relacionadas à importância de mulheres mães serem reconhecidas como indivíduos. Pessoas com projetos e vontades próprias que precisam ser respeitadas para o seu bem-estar e, por consequência, para o bem-estar da criança.
Com todas essas ideias na mala, em 2 de janeiro cheguei a Itacaré. Diferentemente da visita à cidade em dezembro, desta vez vim acompanhada da minha grande amiga Tenha Dara. O fato de sermos mulheres negras, mães, com idades próximas e profissionalmente realizadas sobressaiu. Historicamente posicionadas como cuidadoras do outro em detrimento de si próprias, nossa viagem de férias torna-se um excelente exemplo para discutirmos conquistas centrais, hoje ameaçadas. Direitos humanos, afirmação racial, sucesso profissional. Nessa linha das conquistas que desabrocham quando narramos nossas próprias histórias, começamos a nos fazer a seguinte pergunta: como assegurar que mães tenham direito ao tão sonhado tempo para si próprias? Para suas demandas e desejos individuais?
Para quem pensa que se trata de uma pauta fútil, vale ressaltar que as questões aqui trazidas dialogam diretamente com o contexto de emergência da extrema direita em nosso país. Ou seja, novos padrões de maternidade representam uma poderosa resistência ao sistema machista, racista e patriarcal. Um sistema atualmente marcado pela institucionalização da cultura do ódio, retirada de direitos e desumanização de grupos subalternizados (pessoas negras, indígenas, LGBTI, assim como mulheres, em especial, mães).
De posse dessa compreensão, em Itacaré comecei a observar e refletir sobre o cotidiano das mamães de férias. Acordar e dormir a hora que se tem vontade. Tomar café da manhã com calma. Escolher que biquíni usar. Garantir a ida ao banheiro. Passar o protetor solar. Hábitos simples que devido à sobrecarga de trabalho imposto como obrigação exclusiva de mulheres aprendemos a suprimir de nossas vidas. Lutar para que – dentro das realidades de cada uma – esses direitos cotidianos básicos sejam assegurados faz parte de uma perspectiva feminista inovadora. Nela, o trabalho é para que autoconhecimento e proteção sejam atos políticos que precisamos implementar em nossas vidas. Daí, como tenho insistido, a relevância de construirmos agendas individuais de autocuidado.
Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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