Temas
Compartilhe
Esta conversa me faz lembrar de uma tarde de duas décadas atrás. Amigos reunidos em volta da TV, clima de festa nacionalista interrompido por um gol, depois outro. Ao final do primeiro tempo já tomávamos um vareio de dois a zero. Devidamente alcoolizado quando começou o intervalo, me convenci de que aquela apresentação desastrosa de um time tão forte só podia ser culpa minha – eu havia assistido aos outros seis jogos daquela Copa do Mundo na casa de um outro amigo, troquei de sede justo na final, isso não se faz. Catei a chave do carro, chamei minha companheira de então, que surpreendentemente viu sentido na minha decisão, e juntos atravessamos a cidade deserta, fazendo os pneus gritarem nas curvas, tentando consertar meu erro a tempo de virar o jogo.
Quando cheguei à casa dos outros amigos, o segundo tempo já havia começado, mas ainda deu tempo de ver a França encaçapar um terceiro e levantar a taça de campeão do mundo de 1998. Óbvio que meu tresloucado crime de trânsito não reverteu o resultado a 9.400 quilômetros de lá – o máximo que eu poderia fazer seria acrescentar à simbólica tragédia futebolística uma outra, bem mais real, feita de sangue, vidro moído e aço retorcido.
Resgato essas memórias dolorosas, de derrota e ressaca, só para ilustrar um ponto que, se fôssemos racionais, pareceria óbvio: torcer não adianta. Eu poderia ter dirigido até Paris, que não mudaria em nada o resultado do jogo. Sei disso hoje, já sabia em 1998. Acontece que, como membro da espécie humana que sou, de tempos em tempos me deixo levar pelo pensamento mágico – a crença irracional de que há relação de causa e consequência entre coisas que não têm influência alguma entre si. Se o governo Bolsonaro dará certo ou não, não depende de torcermos por ele.
Não quer dizer que eu não torça pelo Brasil. Torço, claro, sempre. Na economia, na política, no futebol, no surfe. Fico acordado de madrugada assistindo a apurações de votos ou disputas de pênaltis – embora saiba que poderia ler descansado sobre o resultado de manhã, e seria o mesmo resultado.
Torço para que dê tudo certo com o país dos meus filhos. Para que haja escola boa para todo mundo, de maneira a não desperdiçarmos mais tantos talentos como desperdiçamos hoje, e para que essas escolas não imponham a ninguém ideologia alguma, mas estimulem que cada um expresse o que tem de melhor, independentemente da cor da roupa. Torço para que meus filhos não precisem pagar duas vezes pela educação dos filhos deles, como eu pago: uma via impostos, financiando a educação pública, outra diretamente a uma escola privada, porque infelizmente não tenho confiança na educação pública. Torço para que não haja balas voando pelos ares, principalmente nas periferias, e para que quem tem o poder deixe de abusar dele – seja o grande poder do presidente ou o pequeno mas letal poder dos policiais. Torço por uma economia que gere oportunidade todo dia para quem não nasceu em berço de ouro. Torço por um país que saiba enxergar o valor das coisas únicas que só tem aqui – suas culturas, sua comida, sua natureza. Torço, por que não?, por um dia uma sexta estrela despontar na camisa amarela.
Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Navegue por temas