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Giovana Xavier

Às vezes uma mulher precisa mais da prancha

04 de fevereiro de 2019

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Esse poder passa por se apropriar das identidades de ‘única’ e ‘excepcional’ não como fardo ou martírio, mas como uma posição estratégica que oportuniza falar das experiências distintas de mulheres negras

Iniciada a temporada de férias acadêmicas, o mergulho no mundo do surf permanece. Uma das coisas que mais fascina nesse esporte é a cultura de incentivo aos grupos e viagens. Da junção desses estímulos, surgem movimentos inspiradores. É este o caso das “barcas”: viagens em grupo, organizadas por surfistas profissionais, com o objetivo de buscar as melhores ondas em picos de todo o mundo. Para além do intuito mais direto, esse formato tem sido apropriado para visibilizar pautas importantes — entre elas a afirmação das mulheres no esporte.

Assim, cá estou eu, em El Salvador, visitando, pela primeira vez, um país da América Latina como uma das oito participantes da Barca da Bruna Queiroz . Moradora de Maresias, Bruna é uma mulher inspiradora. Em três anos à frente do projeto #bbqonlygirls, a empreendedora já organizou 31 barcas. Com destinos variados como Costa Rica, Havaí, Nicarágua, suas viagens são exclusivas para mulheres. Sua ação afirmativa, cuidadosamente registrada pelas sensíveis lentes da filmmaker Lorena Montenegro, da Moana Filmes , além de contribuir para a valorização da autoestima e do protagonismo femininos, também se torna um grande encontro entre mulheres com formas de ser e posicionamentos diversos.

Em três dias de barca, além de Bruna e Lorena, na companhia de quatro cariocas e três paulistas, todas brancas, fico pensando o quão improvável seria que nossos caminhos se cruzassem em outros contextos. Essa improbabilidade me leva, inevitavelmente, a refletir sobre as desigualdades raciais e de gênero do Brasil. São elas que explicam Bruna ter me respondido que eu sou a primeira surfista negra a participar de uma das suas barcas. Aqui vale lembrar de Erica Prado , Yanca Costa e Suelen Naraisa , surfistas negras inspiradoras, que dedicam suas vidas ao esporte.

Escrever sobre tudo isso requer desprendimento e habilidade porque para muitas pessoas a insistência da colunista em narrar sua profunda relação com as ondas associa-se à “falta de seriedade”, ao “absurdo” e às “besteiras”, para citar alguns dos adjetivos presentes em comentários de leitoras e leitores das minhas colunas.

O fato desse tipo de opinião e cobrança ser inexistente no caso de colegas brancos revela o problema de considerarmos a palavra “mulher” como um conceito universal. Essa generalização liga-se ao racismo e ao machismo, naturalizando a expectativa de que mulheres negras tenham sempre de narrar histórias a partir das feridas, do sofrimento e da subalternidade.

Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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