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Em meio a uma #surftrip estava me preparando emocionalmente para escrever sobre as consequências da enchente no Rio de Janeiro. Lembrei de uma madrugada em janeiro de 2018. O papo no bar estava animado. Pagamos a conta. Quando saímos percebemos que a rua tinha enchido. A água estava na altura dos nossos joelhos. Uma das três amigas precisava estar no aeroporto às cinco da manhã. Pagou R$ 180 de táxi para fazer um trajeto que normalmente custa R$ 60. Perdeu o voo. Por questões de inteligência e segurança, fui dormir na casa da segunda amiga. Mais próxima do bar do que a minha, sua residência fica ao pé do Morro dos Macacos, “lá em Vila Isabel”, bairro de Noel Rosa e da escola de samba de Martinho.
O ritual de passar álcool nos pés, lavar os sapatos, tomar banho foi embalado pelo som ininterrupto de uma sirene. Perguntei do que se tratava. A amiga respondeu-me: este é o “alerta de deixem suas casas”, disparado em situações de risco de desabamento de encostas em favelas. Pensei em situações específicas. Crianças, mulheres em pós-parto, pessoas com necessidades especiais, empregadas domésticas que dormem fora de casa para sustentar suas famílias. Com uma multidão de imagens fazendo minha cabeça, perdi o sono. O botão da pergunta “Até quando?” não parava de apitar. Toda vez que um jovem é assassinado, uma mãe chora a morte de sua filha por bala “perdida”, uma mulher é crítica a sua objetificação, ele apita, bem mais alto do que a sirene. Em volumes que desrespeitam qualquer regra de boa convivência entre seres humanos.
A má notícia é que, independentemente de nosso nível de consciência racial, o alerta do “até quando?” embala a história de todas as pessoas negras no Brasil e, dada tamanha persistência, precisamos escutar e lidar com sua mensagem barulhenta: nossas vidas são a personificação do ditado “para morrer basta estar vivo”.
Embalada pelo som da sirene, comecei a pensar que, por mais que goste do meu nome, (do italiano jovem), se tivesse de escolher outro, gostaria de me chamar Daí. Daí que isso. Daí que aquilo…
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Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.
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