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O título aí em cima é o slogan que a campanha presidencial de Jair Bolsonaro surrupiou da de Marina Silva, da eleição anterior. Dá para entender o roubo: o slogan é bom. Quem é que não é a favor de uma coisa dessas? Viver aqui no chão, construindo coisas, cuidando das pessoas, trabalhando, amando, rindo – em vez de ficar com a cabeça lá, entre aqueles prédios esculturais de concreto branco, sob o domínio daqueles homens de terno preto, cheios de acusações de corrupção.
Quem é que não quer um Brasil livre das amarras de Brasília – de suas notícias lúgubres sobre o PIB (Produto Interno Bruto), seus impostos que nos tomam quase metade de tudo o que produzimos, suas leis feitas sob medida para favorecer a si própria, seus títulos de “excelência” aplicados a tanta gente que não é excelente em nada, suas ideologias enchendo suas bocas mas não os nossos pratos? Mais Brasil, menos Brasília, óbvio.
O slogan é tão bom que funcionou. Foi a aura deoutsider – de não parecer com o que geralmente se espera de Brasília – que elegeu Bolsonaro. Mas hoje dá para dizer com convicção: era mentira. Se o que botou Bolsonaro sentado na cadeira acolchoada do Palácio do Planalto foi a promessa de que poderíamos esquecer Brasília e cuidar de nossas vidas, claramente fomos enganados. Mesmo quem continua apoiando o governo há de concordar: nunca estivemos tão obcecados com Brasília. Acordamos de manhã pensando nela, passamos o dia tensos, diante da certeza de que a qualquer momento outra granada sem pino será arremessada de lá.
É que estamos em guerra – em guerra cultural. Tudo – tudo, tudo tudo – é matéria-prima para ser transformada em munição para a disputa ideológica. Nem no Carnaval o Brasil conseguiu desconectar de Brasília, entre os enredos políticos e o golden shower sem noção do presidente. Brasília invadiu os campos de futebol, os grupos de família no WhatsApp, as timelines do Facebook, os cultos religiosos, os espetáculos de música.
Mais grave: invadiu as escolas. Todas as escolas, todas as universidades. Brasília transformou todas as salas de aula do país inteiro em campos de batalha da guerra cultural. Já não era fácil para os professores no Brasil dar condições para que seus alunos aprendam, em meio a deficiências de gestão, de formação, salários baixos e falta do mínimo. Agora ficou quase impossível. Eles não conseguem mais focar na aprendizagem, de tão distraídos que estão com os torpedos ideológicos que não param de chegar do Planalto Central, com políticos dando palpite sobre currículo, ameaças de perseguição política, demissões por discordar do governo, acusações de serem inimigos do país. Sem falar que, com Brasília pensando só em fazer guerra, esquece-se de comprar livros – não é o foco.
Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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