Coluna

Lilia Schwarcz

Corrupção: um histórico crime de lesa República

03 de junho de 2019

Temas

Compartilhe

Há muito do passado no nosso presente. Desde o período colonial, não faltam exemplos de atos ilícitos

O termo “corrupção” tem virado pau pra toda obra. Corrupto, nesse nosso contexto atual, é sobretudo o outro. Se já faz tempo que temos transformado nosso adversário em inimigo, a novidade agora é também transformá-lo em corrupto. Basta que eu discorde de alguém para logo acusá-lo de corrupto (com ou sem provas). Mas a fórmula só serve para os inimigos, não para os amigos, que se transformam, imediatamente, pessoas acima da lei. É isso que ocorre com o governo de Jair Bolsonaro, que faz conta de noves fora quando é hora de julgar os casos que envolvem o presidente, seus filhos e aliados mais próximos.

Se esse uso, como categoria de acusação, é de alguma maneira novo, a história da corrupção é longa e estabelecida entre nós. 

 Aliás, é possível dizer que a corrupção é o grande inimigo da República! Ela tem a capacidade de degradar a confiança que temos uns nos outros e de desagregar o espaço público, desviando recursos e direitos dos cidadãos. E se ao longo do tempo a corrupção ganhou vários nomes, em seu conjunto eles guardaram uma compreensão comum: referem-se ao ato de transgredir, no sentido de “desrespeitar, violar e infringir as mais diversas áreas de atuação”.

Etimologicamente, a palavra corrupção provém do latimcorruptio, significando o “ato de quebrar em pedaços”, com o sentido de deteriorar ou decompor algo. Aliás, não só no mundo da política, mas também nas relações humanas e pessoais a corrupção costuma desagregar tudo por onde passa. E, mesmo sabendo que a prática não faz parte do DNA dos brasileiros, vale à pena voltarmos na história, procurando mostrar como há muito de passado no nosso presente.

O problema é que nossa história tem o poder de, ao mesmo tempo, deslocar mas também incluir novos sentidos. O termo “propina”, por exemplo, que hoje significa um recurso oferecido de forma ilícita a alguém ou a uma instituição, surgiu vinculado ao mundo das bibliotecas e com um sentido bem distinto. Em Portugal, em 1797, ano da criação da Biblioteca Pública, o conceito de “propina” remetia ao costume de retirar um exemplar de cada edição nacional para que ficasse guardado na instituição. Nada havia de ilegal na atividade; ao contrário, a propina tinha como objetivo preservar a memória editorial de modo a garantir que os acervos públicos preservassem exemplares de todas as publicações do país. Lembrava, de toda maneira, o ato de receber “contribuições”, em exemplares.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Navegue por temas