Coluna

Lilia Schwarcz

‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha: um livro vingador

01 de julho de 2019

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Obra clássica, publicada no início do século 20, desempenha papel expiatório na sociedade brasileira em meio ao seu processo de modernização conservadora e em nome da ‘razão de Estado’

Neste ano de 2019, a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) homenageará Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866-1909), esse intérprete do Brasil polêmico, contraditório, mas essencial.  Euclides da Cunha teve sua vida tão colada ao episódio que retratou, e às interpretações que a ele aplicou, que, muitas vezes, os limites entre reportagem e biografia tornam-se tênues e frágeis. Me refiro ao livro “Os Sertões: campanha de Canudos”, publicado em 1902, e que conheceu sucesso imediato.

No entanto, nenhuma obra, por mais inovadora que seja, consegue fugir inteiramente às circunstâncias da sua produção, de seu contexto, e do momento que a viu nascer. É possível fazer paralelos, nesse sentido, com a infância problemática de Euclides – a morte prematura dos pais, as várias mudanças de endereço, a convivência forçada com parentes distantes, a inserção problemática na Escola Militar, a formação positivista, e a vida não só curta como cortada por um duelo com o amante de sua esposa, que ocasionou a sua morte. 

Sem fazer um jogo de causalidade fácil, é inegável como essas primeiras experiências e a formação escolar ecoam em Euclides da Cunha pensador do Brasil; de vários Brasis dentro de um só país. É enganoso acreditar, porém, que todo livro participa de seu tempo da mesma forma. Tampouco vale a pena imaginar que uma obra seja apenas um “reflexo” imediato de seu tempo. Livros como esse são sempre mais, pois ajudam a criar o contexto que, teoricamente, apenas reproduzem.

E o que faz de “Os Sertões” uma obra especial é o fato de seu autor viajar rumo ao arraial de Canudos cheio de certezas acerca da “barbárie” vigente no local – como jornalista enviado pelo jornal A Província de São Paulo (mais tarde, O Estado de São Paulo) –, e de ter voltado tomado por dúvidas e completamente desiludido com a, assim chamada, “civilização”.

A comunidade de Canudos vivia no interior do estado da Bahia, num local pouco conhecido pelos ilustrados da capital carioca. A região, caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, passava por uma grave crise econômica e social. Desenganados, abandonados pelos políticos e grandes proprietários, milhares de sertanejos dirigiam-se para Canudos, uma sorte de cidadela liderada pelo peregrino Antônio Conselheiro (1830-1897). Unidos por uma crença na salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flagelos do clima e da exclusão secular, tanto econômica como social, o arraial cresceu muito. Mas a própria organização comunitária de Canudos e o comércio que realizavam com a vizinhança tocaram fundo nos brios dos grandes senhores da região, os quais, unindo-se à Igreja, que se sentia igualmente ameaçada pelo milenarismo do líder de Canudos, deram início a uma forte pressão junto ao governo da República, no sentido de que fosse aniquilado o, assim chamado, “cancro monarquista”. 

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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