Coluna

Lilia Schwarcz

A persistência do latifúndio e do mandonismo no Brasil

29 de julho de 2019

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Nossa República continua falha e apresentando muita concentração de poderes, no que se refere à igualdade social, de renda e à propriedade

“Latifúndio” é um termo de origem latina que inclui e condensa as noções delatus, “amplo, espaçoso e extensivo”, efundus, cujo sentido é o de “fazenda”. Já “plantation” foi o termo usado para nomear os domínios ingleses no ultramar e que depois a historiografia generalizou para as demais colônias, mas cujo significado era basicamente o mesmo: uma  propriedade rural de grande extensão, muitas vezes formada por terras mal cultivadas ou exploradas, com a utilização de técnicas rudimentares e pautadas no suposto do uso depreciativo da terra e com baixa produtividade.

Tanto na época do predomínio da cana-de-açúcar na região Nordeste do Brasil (durante os séculos 16, 17 e 18) como no contexto da cultura do café, cujo predomínio data de meados do século 19, o padrão da “agroindústria” foi se modificando, e os proprietários, além de herdar, compravam terras. Já o poder de mando do senhor sobre suas terras e aqueles que nela habitavam seguiu basicamente semelhante. É fato que foi se consolidando, em poucas províncias, e de forma paralela, uma economia interna baseada em pequenas e médias propriedades. No entanto, e ainda assim, a formação e ascendência desses grandes mandões locais manteve-se pouco alterada.

O modelo colonial que se desenvolveu no Brasil combinava, portanto, e majoritariamente, mão de obra escrava com a grande propriedade monocultora, o personalismo dos mandos privados e a (quase) ausência da esfera pública e do Estado. Esse grupo conformava uma espécie de “aristocracia meritória” recente, e não “hereditária” como era a europeia, uma vez que seu predomínio advinha da concentração da riqueza e do poder.

Vigorou por aqui, portanto, uma espécie de “nobreza autodeclarada” e que combinou os privilégios adquiridos com o domínio por sobre uma terra de maioria escravizada. Se tomarmos como exemplo o conjunto das famílias dos proprietários coloniais do Nordeste açucareiro, fica claro que poucos eram fidalgos portugueses, e, menos ainda, católicos. Muitos deles eram cristãos novos, comerciantes, imigrantes de posse que dedicavam seu tempo e capital à produção e ao comércio da cana. Só com o desenvolvimento do sistema, e com a perpetuação do casamento entre pares, é que esses senhores foram se convertendo numa classe mais homogênea. A partir de então, e como bem mostra Evaldo Cabral de Mello, em “Rubro Veio”, dedicaram-se a construir genealogias míticas, buscando estabelecer no passado suas supostas e inventadas raízes nobres. Também se esmeraram em construir uma história edificante, unindo à figura do senhor aquela do “pai” — bondoso e severo — e assim projetando uma sociedade patriarcal, na qual as mulheres cumpririam um papel basicamente secundário e a hierarquia teria lugar especial. Aí estava o modelo dessa sociedade patriarcal brasileira; a família (do senhor) funcionando como esteio e anteparo, real e simbólico, para toda a organização social e o Estado mantendo-se distante.

Essa estrutura tenderia a se eternizar tanto no contexto da cafeicultura, como durante a Primeira República (1889-1930), quando a figura do coronel, que durante o Império representava o posto mais alto na hierarquia da Guarda Nacional – a instituição do Império que ligou os proprietários rurais ao  governo – tendeu a se consolidar. Nesse contexto, a guarda perdeu sua natureza militar, os assim chamados coronéis deixaram de participar da corporação, mas conservaram o poder político nos municípios onde viviam, recriando em novas bases a mística dos grandes mandonismos locais. O coronelismo passou a significar, então, um complexo sistema de negociação entre esses chefes e os governadores dos estados, e destes com o presidente da República. 

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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