Coluna

Denis R. Burgierman

Coragem, Brasil

22 de maio de 2019

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O momento pede não violência, que é algo inteiramente diferente de pacifismo

Eu fugi do Brasil. Não, não fugi de vez, volto logo. Nem pretendo fugir de vez, quero estar no meu país neste período difícil, para participar da reconstrução, quero que meus filhos pequenos cresçam brasileiros. Só dei uma fugidinha. Agarrei-me a uma oportunidade de um evento numa cidade cheia de jotas depois de éles – Ljubljana, na Eslovênia, o mais distante que consegui encontrar de Bolsonaro. Aproveitei para botar para rodar um projeto de livro que vinha adiando faz tempo, e vou passar quase um mês longe, mergulhado em pesquisa. Quando embarquei em Cumbica, semana passada, planejei desconectar daí, e usar esta coluna só para mandar para vocês umas distrações alienadas vindas de longe de vez em quando.

Não rolou, claro. Minha cabeça não consegue sair daí. Andei sendo despertado por pesadelos políticos no meio da madrugada, com o impulso de levantar para procurar notícias na linha do tempo do Facebook e ir lamentá-las no WhatsApp. E toda conversa que tenho por aqui vai derivando até que me vejo lamentando nossos erros, nossas agruras, nossos azares, nossos medos. E acabo em lágrimas lembrando das pessoas queridas que saltaram no abismo do ódio, jogando o resto de nós junto, e que agora me esforço para um dia ser capaz de perdoar.

O evento do qual vim participar era sobre desinformação e sua relação com a corrosão das democracias, em toda parte. Encontrei turcos, italianos, americanos, chineses, poloneses, preocupados também com o que acontece na terra deles. Entrevi em algumas conversas o risco que corremos — o tanto que pode piorar. Um novo amigo turco falou do êxodo de jornalistas, de homossexuais, artistas, não-muçulmanos, cientistas, ativistas, para quem a antes laica e tolerante Turquia ficou irrespirável, graças a Recep Erdogan, o Jair Bolsonaro deles. Mas todo mundo — ele inclusive — parece chocado com o que acontece aqui, sem conseguir acreditar nas histórias extremas que eles ouviam falar de Bolsonaro. “É sério que ele falou isso mesmo?”, perguntam. É sério. Saibam que vocês, aí no Brasil, contam com a solidariedade do mundo.

Numa dessas madrugadas de pesadelo e WhatsApp, fiquei sabendo que Bolsonaro está chamando o Brasil para a guerra. Que convocou seus seguidores para tomarem as ruas no domingo, em resposta aos protestos contra as patetices do seu governo e seu projeto de destruir a educação. Do interior profundo da Eslovênia fiquei baixando vídeos assustadores, de apoiadores ameaçando aos gritos calar o dissenso. Na hora que vi isso, me deu raiva, e me pus a fantasiar sobre as agressões que esses bolsonaristas iludidos iriam sofrer, ao defender o indefensável em meio a uma população furiosa.

Mas depois me acalmei. Espero, de coração, que isso não aconteça. Espero que o Brasil tenha a coragem de não cair na provocação e não deixar Bolsonaro fazer o que ele quer, que é transformar a raiva merecida contra sua evidente incompetência para governar em pretexto para truculência. Nesta hora agora, o Brasil precisa de cabeça fria — e eu sei que, do meio da minha fugidinha, acordando com pesadelos e entrando no Facebook, estou sem moral nenhuma para falar disso. Mas precisamos.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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