Coluna

Luciana Brito

As relações estreitas entre criacionismo, escravidão e racismo

04 de fevereiro de 2020

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Teorias sobre a origem do ser humano sempre foram usadas para justificar projetos públicos marcados pela segregação e a desigualdade

Como 2 de fevereiro é dia de Yemanjá, devo falar do poder da criação.

Conta a mitologia Yorubá que, da união entre Obatalá (o céu) e Oduduá (a terra), nasceu essa deusa das águas. Num equilíbrio entre o masculino e o feminino, o papel de Yemanjá no processo de criação seria de parir os orixás, por isso ela é mãe da maioria deles. Também por ser a “mãe dos peixes”, ela mora no mar e define quando há calmaria e quando as águas se agitam. Yemanjá representa as mães e é também a dona das cabeças humanas, e é por isso que a ela pedimos o sossego e a calmaria no ritual do bori.

Bem, essa é uma breve passagem que trata do lugar de Yemanjá no mito de criação segundo a minha religião, o candomblé. Essa é uma metáfora que, sob a perspectiva das religiões de matriz africana, situa o lugar dessa grande mãe na origem do mundo. Nesse mito, refletimos sobre repartição do poder, equilíbrio de forças entre homens e mulheres na sua potência criadora e sobre a força feminina, tanto no seu poder de gerar a vida humana quanto de lutar para definir seu destino.

Repito, esse é um mito, um dos vários que explicam a “criação” e servem unicamente para explicar a origem do mundo sob uma determinada perspectiva religiosa.

Mas e o criacionismo? Por que essa mitologia cristã que explica a criação do mundo tem, cada vez mais, se deslocado do lugar de metáfora para ser uma ideologia norteadora de governos conservadores, orientando políticas públicas, sobretudo na área da educação?

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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