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Lilia Schwarcz

Duas Mônicas: nome e anonimato nas fotos de amas de leite brasileiras

09 de março de 2020

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A inclusão de um nome em duas imagens do século 19 ilustra a luta das mulheres escravizadas contra os violentos processos de invisibilidade a que foram submetidas

Durante o século 19, com a popularização da fotografia, as elites nacionais fizeram dessa técnica sua forma dileta, porque moderna, de representação. E não se furtaram a, por vezes, retratarem-se ao lado de seus escravizados e escravizadas, como prova de propriedade e de riqueza. Caso paradoxal foi a verdadeira voga de fotos de amas de leite, na segunda metade do século 19. Muito utilizadas no espaço doméstico, elas substituíam mães que não podiam ou não queriam amamentar seus filhos. Até a abolição da escravatura no Brasil (em maio de 1888), muitas das amas eram escravizadas da família, ou podiam ser alugadas com esse objetivo. Poucas tiveram a sorte, porém, de serem autorizadas a “dividir” o seu leite entre o próprio filho e o bebê branco; seu pequeno senhor. E mais ainda: viraram símbolo de uma “boa escravidão”, porque, supostamente, maternal.

Levadas aos estúdios localizados nas cidades grandes, muitas vezes, posavam com roupas e adereços emprestados e seguindo vogas europeias ou africanas. Era preciso que ficassem firmes, em meio a um ambiente pretensamente rebuscado, com colunas e espaldares, para que a foto não resultasse tremida. A técnica do daguerreótipo e dos cartes de visite fazia com que as lentes se abrissem muito lentamente, o que dificultava o processo: qualquer mínimo movimento estragava uma foto para sempre, com os modelos lembrando fantasmas fugidios. Por isso mesmo, as amas apareciam sentadas com as crianças em seus colos ou imediatamente ao lado. Assim controlavam, com a intimidade que tinham diante de seus “pequenos senhores e senhoras”, qualquer trejeito dos pequenos. O importante é que ao fim e a cabo, a foto prendesse a atenção para seus modelos principais, e, sobretudo, transmitisse uma imagem positiva e harmoniosa da escravidão.

Existia uma espécie de convenção visual que circulava nesse universo afro-atlântico, que jogava com a ideia de nomeação e anonimato. Qual seja, a criança era na maioria das vezes nomeada de forma completa, com seu primeiro nome e sobrenome de família. Já a ama surgia, majoritariamente, sem nome, origem ou idade. “Era tão somente uma escravizada”. Uma ama como tantas outras.

FOTO: JOÃO FERREIRA VILLELA/ACERVO FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO

Retrato antigo e danificado de um jovem menino branco de pé, abraçado a uma senhora negra sentada, ambos em trajes finos do século 19

Augusto Gomes Leal com sua ama de leite Mônica. Albumen, Carte de visite, 1860. Cedida pela Cehibra (Coordenação-Geral de Estudos da História Brasileira) da Fundaj

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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