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Neste próximo domingo, teríamos tido a oportunidade de ter uma ideia da real força política de Jair Bolsonaro. O cancelamento das manifestações previstas para este 15 de março por efeito da retirada de apoio do presidente fazem da capacidade de mobilização destes movimentos o termômetro de sua densidade na sociedade civil.
Estimulados por declaração do General Augusto Heleno, os líderes desses movimentos chamaram a população para dar apoio ao presidente, que supostamente não consegue realizar as reformas que o Brasil precisa porque é refém do Congresso. Em escala em Boa Vista, em 7 de março, acompanhado do General Heleno, Bolsonaro deu total apoio às manifestações, ressalvando que estas não são contra o Congresso e o Judiciário, mas a favor do Brasil. Já em Miami, em seminário com empresários, declarou-se totalmente empenhado nas reformas administrativa e tributária.
O Executivo, entretanto, até o momento não submeteu nem uma nem outra. Sua principal iniciativa tem consistido em adiar sistematicamente para a semana seguinte a submissão de alguma proposta ao Congresso. Na verdade, as propostas em tramitação partiram do próprio Congresso.
Se isso tem alguma lógica, está difícil de entender. Olhem bem: na versão do presidente, os movimentos bolsonaristas deveriam sair às ruas neste próximo domingo para pressionar o Congresso a aprovar reformas cuja iniciativa partiu do próprio Congresso.
Passo seguinte, o Congresso vetou o veto do presidente a uma mudança nas regras do Benefício de Prestação Continuada que ampliaram o acesso ao benefício. Os parlamentares saíram da posição de auto-interessados em fatias do Orçamento para defensores dos mais pobres, impondo ao executivo desgaste adicional.
Marta Arretcheé professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.
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