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Luciana Brito

E o racismo, pode parar? O cuidado pessoal e coletivo como estratégia de sobrevivência

13 de abril de 2020

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Nos dados sobre a raça dos hospitalizados e mortos por covid-19 é possível analisar os silêncios e as pistas que revelam a desigualdade brasileira

Na semana passada, saíram os dados com o perfil racial das vítimas no novo coronavírus nos Estados Unidos, confirmando aquilo que já esperávamos: se o vírus não respeita hierarquias de classe social e raça, ele se instala em sociedades altamente influenciadas por tais fatores, e a consequência disso estamos começando a perceber nos resultados desiguais dos efeitos sobre a saúde das pessoas.

Chamou atenção das autoridades locais e estaduais o número de mortes entre a população afro-americana. Na pequena Nova York (geograficamente falando), a grande maioria dos casos se concentram nas regiões do Queens e Bronx (bairros de negros e latinos), chegando cada distrito a quase a metade de Manhattan, onde moram as elites da cidade.

Em Milwaukee, onde a expectativa de vida média dos negros é 14 anos menor do que a da população branca, chega na faixa de 81% a porcentagem de afro-americanos mortos . Lá a população negra perfaz 26% dos habitantes. Assim como em Nova York, pessoas negras que buscam atendimento nos hospitais de Milwaukee encontram com um velho inimigo da sua saúde: o racismo estrutural. Diversos são os relatos das pessoas que são orientadas a voltarem para casa e se auto-medicarem.

Em Michigan, onde somente 14% da população é negra, homens e mulheres negras totalizam 35% dos casos confirmados e 40% das mortes. Na Louisiana não é diferente. New Orleans já apresentava dados alarmantes sobre as vítimas negras em número desproporcional às vítimas brancas, algo que já era esperado, sobretudo, levando em consideração que a cidade havia acabado de festejar o carnaval (parece que estou falando de Salvador, mas é New Orleans). Pois bem, no estado da Louisiana, onde 33% da população é negra, é essa parcela populacional que corresponde a 70% das pessoas mortas … 70%!

Os dados com perfil racial não foram fornecidos, até agora, pelo Centro de Controle de Doenças do governo federal, o CDC, na sigla em inglês. Quando questionado sobre os motivos que explicam esses dados e quais medidas serão tomadas para proteger a população afro-americana, o presidente Donald Trump disse, aparentemente surpreso, que não imaginava o que poderia explicar o número desproporcional de mortes de pessoas negras. A reação do presidente, como sempre desdenhosa, pode indicar uma possível resposta oficial: a primeira é que a população afro-americana pode ser acusada de morrer porque não seguiu as recomendações de saúde, seja por pobreza ou seja por ignorância. Um segundo possível argumento oficial seria que a população negra, de forma natural, deve ter características genéticas para as quais o vírus é mais fatal, ou seja, novamente, a culpa seria da natureza ou de deus.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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