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Lilia Schwarcz

O que acontece quando mulheres enfrentam a crise?

20 de abril de 2020

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Ao redor do mundo, primeiras-ministras e chefes de governo têm se destacado no controle da pandemia do novo coronavírus em seus países

O machismo é um fenômeno tão generalizado que há quem ache que ele seja “natural”. Não é! O machismo é uma construção social que prolifera em ambientes onde apenas homens controlam o poder, determinam a hierarquia e submetem todos os demais grupos de gênero a práticas de subordinação social. A homofobia e o machismo estão presentes no nosso dia a dia, nos hábitos cotidianos, mas são muito visíveis, também, no mundo da política, onde a prática tem implicado em tornar invisível a atuação de mulheres que ocupam cargos importantes no governo de seus países, mas que não seguem a cartilha dos dirigentes masculinos.

Talvez por isso o noticiário político internacional esteja sempre repleto de homens brancos, de meia idade, com suas gravatas vistosas e ternos bem (ou mal) cortados. Só há espaço para políticos normativos como Donald Trump com seu cabelo de palha, Boris Johnson (que segue o mesmo estilo de cabeleira), o primeiro ministro húngaro Viktor Orban – que dá um golpe em cima do outro –, o ditador da Nicarágua Daniel Ortega, ou o ultra-direitista primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no poder desde 2009. Isso sem esquecer de nossa versão tropical, que atende pelo nome de Jair Bolsonaro e segue o mesmo receituário populista e autoritário.

Em comum, todos eles falam grosso, pensam que têm um canal direto com o povo e por isso desrespeitam instituições, políticos, jornalistas e cientistas. Em comum, também, muitos delestêm apanhado feio de um pequeno organismo que atende pelo nome de coronavírus, que causa a doença covid 19. Se num primeiro momento, vários deles simplesmente negaram a existência e a importância da Praga, hoje têm sido obrigados a reconsiderar suas políticas, e formas de agir e de atuar na crise. Um deles, Boris Johnson, amargou o próprio remédio: foi parar no hospital, contaminado, e ao sair elogiou dois enfermeiros imigrantes que cuidaram dele – a despeito do primeiro-ministro inglês ter uma plataforma contra a entrada de mão de obra estrangeira no Reino Unido.

E se nada tem dado muito certo para esses senhores, um fenômeno bastante distinto vai ganhando força em países liderados por mulheres. Presidentas e primeiras-ministras de lugares como Dinamarca, Alemanha, Singapura, Islândia, Finlândia, Taiwan, Bélgica e Nova Zelândia têm mostrado muito mais agilidade para lidar com a epidemia que se abateu pelo globo, e que tem feito parar, tal qual trem descarrilhado, nações que pareciam (e se apresentavam como) inquebrantáveis.

Jacinda Kate Laurell Ardern (nascida na cidade de Hamilton, em 1980) é uma política jovem da Nova Zelândia, mas que atua como primeira-ministra de seu país desde dezembro de 2017. Ela se define como social-democrata e progressista. É a favor do aumento do imposto para pessoas de alta renda, advoga pelo casamento homoafetivo e de outras identidades de gênero, defende a legitimidade do aborto, e apoia um estado de bem-estar social que forneça uma renda mínima para aqueles que não têm condições de se sustentar. De líder da oposição, desde 2008, e identificada ao Partido Trabalhista, ela passou a primeira-ministra e tem lidado com a crise sanitária de maneira muito eficaz. Até o último dia 9, a Nova Zelândia tinha muito mais pessoas recuperadas da covid-19 do que acometidas pelo vírus. Uma das medidas mais importantes tomadas por ela foi a imposição de ciclos de isolamento social completo. Além disso, as fronteiras da Nova Zelândia estão fechadas desde o dia 19 de março. É certo que estamos falando de uma pequena ilha na Oceania, onde é mais fácil fechar as fronteiras internas do que as nações europeias, por exemplo. Mesmo assim, chama atenção o vigor da primeira-ministra. No último dia 23, ela deu 48 horas aos neozelandeses para se prepararem para um bloqueio do país. Desse dia em diante, todos, exceto os trabalhadores essenciais, foram obrigados a ficar dentro de casa – o famoso lockdown – por quatro semanas. E explicou: “Estamos nisso juntos”. Mais recentemente anunciou um corte de 20% nos salários de toda a alta cúpula de seu governo, durante seis meses. Os recursos serão direcionados ao combate ao coronavírus.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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