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Que sentimento é esse que faz com que o empresariado brasileiro — pequeno, médio ou grande — acredite que é obrigação da massa trabalhadora negra (de todos os tons de cor) sacrificar a vida para voltar ao trabalho?
É domingo, dia das mães, enquanto tomo café da manhã com minha família, e temos nossa paz interrompida pelos buzinaços: é o protesto motorizado das elites de Salvador, que assim como seus pares em todo Brasil, insistem na quebra do isolamento social. Nem no dia das mães dão uma trégua?
Encabeçados por apoiadores do presidente, homens e mulheres continuam sua campanha feroz e violenta pela volta ao trabalho dos pobres, ignorando assim as políticas de isolamento social que até então, assim afirmam cientistas e a OMS (Organização Mundial da Saúde), são ainda a medida mais eficaz de combate à proliferação do novo coronavírus. Danem-se os pobres, negros de todo tom de negritude. Balconistas, motoristas, professoras e sobretudo trabalhadoras domésticas (consideradas trabalhadoras de serviços essenciais) que voltem ao trabalho enquanto as elites protestam de dentro dos seus carros, preservados pelo isolamento social que condenam.
Mas de onde vem esse sentimento de parcela financeiramente poderosa da população brasileira, cuja identidade é construída sob a ideia de que o negro pobre, por natureza, existe para lhe servir, de diversas formas? Como é semana do 13 de maio, e pelo fato de eu ser historiadora de ofício, acho que vale a pena voltarmos precisamente ao período da abolição. A escravidão, ao meu ver, é ainda algo fundamental para se entender a sociedade brasileira.
Engana-se quem acredita que a escravidão acabou no dia 13 de maio de 1888, assim como quem acredita que nos EUA a escravidão acabou após a Guerra Civil, em 1865. Sem dúvida, as declarações de abolição foram marcos políticos e sociais importantes, mas graças à recusa de senhores de escravos de aceitarem as leis, a exploração da mão de obra negra, de forma legal ou ilegal, continuou a existir sem o pagamento de salários e sob condições semelhantes à escravidão. No caso do Brasil, experiência à qual vou me ater aqui, vivia-se uma queda de braço: de um lado, senhores de escravos incomodados com aquilo que acreditavam ser fruto do 13 de maio, a desobediência e atrevimento dos libertos. Do outro lado, homens e mulheres negras que agora se recusavam a trabalhar nas mesmas condições de quando eram escravizados. Portanto, cruzavam os braços, exigiam salário, rejeitavam o chicote como instrumento de disciplinarização e literalmente sambavam sua liberdade na cara da sociedade. O atrevimento das libertas e libertos como arma de resistência incomodou bastante. Aliás, era por meio desses atos de insubordinação que de alguma maneira diziam para seus ex-senhores e ex-senhoras sobre sua maior esperança do Brasil pós-abolição: depois de 13 de maio de 1888 as coisas não seriam mais as mesmas.
Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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