Coluna

Luciana Brito

Que loucura essa mistura: a supremacia branca à brasileira

08 de junho de 2020

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A triste morte do menino Miguel mostra como a herança escravista da sinhá contemporânea continua a caracterizar o racismo no Brasil

Em 2017 um grupo de supremacistas brancos nos Estados Unidos, oriundos de diversas organizações dessa natureza, marchou para a cidade de Charlottesville no estado de Virginia, para protestar contra a destruição de uma estátua de um general confederado. Naquela ocasião, a cidade tornou-se palco de um dos confrontos mais violentos da história recente dos Estados Unidos. Um supremacista foi sentenciado por homicídio após dirigir um carro em alta velocidade contra uma multidão que protestava pelo fim do racismo, antissemitismo e homofobia. Nesse ataque motorizado, uma pessoa morreu e diversas ficaram feridas . Uma das cenas mais assustadoras da atividade dos supremacistas, grupo composto por homens brancos de idades variadas, são as imagens nas quais esses eles aparecem marchando à noite carregando tochas acesas , lembrando as antigas marchas de Ku Klux Klan.

Mas antes que alguém respire aliviada acreditando que não temos esse tipo de manifestação aqui no Brasil e que vivemos uma espécie de “racismo leve”, cuidado. Primeiro porque “racismo leve” não existe, e segundo porque o racismo brasileiro passa por um processo de mudança. Ao mesmo tempo em que temos elementos novos, ainda por muito tempo vamos ter que lidar com as sutilezas do racismo à brasileira. O fato é que, tanto de uma forma como de outra, o racismo brasileiro e o estadunidense têm o mesmo princípio: são sociedades nas quais alguns setores defendem que umas pessoas são mais humanas que outras, a depender da cor da pele.

No último dia 31 de maio de 2020, uma cena assustadora aconteceu em solo brasileiro. Um grupo de pessoas brancas marchou na frente do Supremo Tribunal Federal , muitas delas mascaradas, carregando tochas acesas, tal qual no protesto supremacista branco de agosto de 2017 em Charlottesville. A pauta supremacista estava no lugar racial das pessoas envolvidas, na simbologia que estavam apropriando e no discurso de recriação de uma determinada identidade nacional.

Isso é possível porque, num país em que pessoas negras são maioria da população, líderes de manifestações como essa e outros grupos incorporam cada vez mais o pior da cultura e da política estadunidense. Mas essas pessoas sabem que devem ser mais cautelosas ao anunciar abertamente suas pautas raciais num país onde são minoria, embora estejam cada dia mais ousadas.

O tipo de prática de supremacia branca que conhecemos muito bem é outra, e aí vou me permitir falar de regionalidade também ao expressar minha familiaridade com o modelo de racismo que vivenciamos aqui de forma particular, na região Nordeste.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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