Coluna

Luciana Brito

Genocídio ou exagero? A indignação da hipocrisia conservadora

20 de julho de 2020

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A palavra gerou controvérsia quando usada pelo ministro Gilmar Mendes, mas há décadas é empregada nos movimentos sociais para descrever políticas de apagamento das populações vulneráveis

Na semana passada, muito se discutiu sobre se o que está em curso no Brasil é um genocídio ou não . O debate caiu no campo semântico, das hipérboles ou do suposto “exagero no tom” entre senhores, dos quais se esperam a complacência, o decoro e a não-ruptura.

O fato é que, enquanto o termo gerou uma profunda crise entre os poderes, por agora já somos mais de 80 mil mortos por covid-19 no Brasil. Sem exageros, continuam sendo os negros e pobres a maior parte das pessoas que morrem. No Nordeste, por exemplo, são 82% dos mortos , segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Também é no Brasil que está a maior proporção de pessoas jovens afetadas pela pandemia. Todos os estudos científicos apontam que a desigualdade racial e econômica, atreladas, têm contribuído para esse resultado no país, além do péssimo acesso a serviços de saúde e saneamento, associados às vulnerabilidades das condições de trabalho.

Voltando ao genocídio enquanto termo, o que diriam sobre seus significados as pessoas indígenas e suas lideranças? Sob um governo que percebe o direito à terra dos povos indígenas como um entrave à “civilização”, qual seja, à ação muitas vezes ilegal de madeireiros e dos gananciosos líderes religiosos sedentos por “conversões”, aquelas comunidades isoladas acabam sendo as maiores vítimas e, em suas próprias palavras, denunciam as políticas genocidas. O contato com madeireiros e missionários é também vetor de doenças, inclusive da covid-19, que tem sido a mais nova arma letal contra esses povos. Segundo Sonia Guajajara , importante liderança brasileira e coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, não há exagero algum em chamar de genocídio o que ocorre atualmente.

Outro dado alarmante lançado na semana que passou nos faz pensar se é de fato hiperbólico o uso da palavra genocídio. Uma nova pesquisa demonstra que o Brasil amarga a liderança de mais mortes de gestantes por covid-19 no mundo. 77% das mortes de gestantes e puérperas pela doença ocorreram no Brasil: 160 mulheres, contra 16 nos EUA, uma na França e cinco no Reino Unido.

Rafaela de Jesus Silva foi uma delas. A jovem de 28 anos, estudante de pedagogia e mãe de primeira viagem, morreu no dia 1 de abril. Segundo o marido, a filha que esperava era o grande sonho de Rafaela, além do projeto familiar de ascensão social-financeira, que desejava alcançar por meio da educação e do empenho no negócio da família. Rafaela era negra, nordestina e jovem.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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