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Cresci ouvindo histórias. Neta de dois historiadores amadores e filha de um pai louco por narrativas de aventura, sempre aguardei com avidez a hora em que começavam esses verdadeiros rituais de família.
Meu avô Vitório Camerini era italiano, nascido em Milão; baixinho e irônico, chegara ao Brasil um pouco antes da Segunda Guerra Mundial estourar. Esperto, e um próspero comerciante de tecidos, julgou corretamente que o ambiente europeu andava muito intolerante, sobretudo contra judeus, e resolveu tentar a sorte em outro continente.
Pensou em mudar com a família para os Estados Unidos. Seu irmão mais velho já estava por lá. Mas acabou se decidindo por viajar para um desconhecido país chamado Brasil, onde alguns conhecidos já tinham se instalado. Precavido, não esqueceu seus livros. São dele, e muitos em italiano e inglês, os grandes compêndios de história que tenho comigo, de Jules Michelet (1798-1874), Jacob Burkhard (1818-1897), Edward Gibbon (1737-1794).
Armand Henri Moritz era o nome de meu outro avô: um francês arretado, que nasceu em Saarbrucken na região da Alsácia Lorena, região limítrofe que, na história corrida, por vezes pertenceu à Alemanha, por vezes à França. Armand sempre negou qualquer cidadania alemã, a despeito de falar os dois idiomas correntemente. A família Moritz morava em Luxemburgo na época da Segunda Guerra. E como acreditassem que eram sobretudo cidadãos franceses, demoraram a perceber que nesse contexto seriam entendidos primeiro como judeus e só muito depois como franceses. Embarcaram num dos últimos navios para o Brasil, já no perigoso ano de 1942.
Meu avô paterno não teve tempo ou espaço nas malas para recolher todos os seus livros, que ficaram nas estantes da casa da família, a qual foi logo transformada em quartel general de comandos nazistas.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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