Coluna

Cristina Pinotti

A desintegração de laços sociais e o populismo

10 de setembro de 2020

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A perda de hábitos de cooperação, da confiança e da solidez das relações na sociedade contribui para o surgimento de políticos outsiders com promessas vazias

Hábitos de cooperação, solidariedade e espírito público são vitais para o vigor das democracias. A solidez e a frequência das interações entre os indivíduos em uma sociedade, e a qualidade das normas de reciprocidade e confiança que regem suas relações determinam o “capital social” de um país ou região. Há meio século esse conceito vem sendo aprimorado, sobretudo a partir do surgimento de pesquisas abrangentes e detalhadas sobre os valores, hábitos e crenças das populações da maior parte dos países.

Vários estudos encontram forte correlação entre a qualidade do capital social e o crescimento econômico, o desenho e desempenho das instituições, a incidência de criminalidade, entre outros fatores. A recente fragilização das democracias ao redor do mundo motivou Paola Giuliano e Romain Wacziarg, ambos economistas, a pesquisar, em trabalho recém publicado , a existência de correlação entre o aumento do populismo e o esgarçamento do capital social no Estados Unidos, medido pelo declínio da participação das pessoas em organizações cívicas e religiosas. Os resultados são robustos e inquietantes.

Os autores analisam a eleição de Donald Trump em 2016 com base nos números das primárias do Partido Republicano e da eleição geral, a partir tanto de dados relativos a cada distrito eleitoral como de pesquisas feitas com indivíduos. Constroem, por exemplo, um indicador de capital social por distrito eleitoral entre 2009 e 2014 baseado em quatro variáveis: 1) densidade das organizações cívicas, religiosas, profissionais, políticas e esportivas; 2) comparecimento às urnas; 3) taxa de resposta ao Censo; e 4) número de organizações sem fins lucrativos, incluindo as de origem internacional. Outro indicador de capital social veio de uma medida objetiva de confiança obtida do General Social Survey. Também foram consideradas nas regressões outras variáveis correlacionadas com as preferências eleitorais, como educação, densidade populacional, desemprego, porcentagem de emprego industrial, renda e composição racial. Já os dados individuais vieram de duas bases de dados (CCES e Gallup), sobre atitudes políticas e questões demográficas antes e depois da eleição de 2016, e sobre a preferência por Trump como presidente.

Os resultados encontrados em todos os casos analisados são muito robustos e indicam que as preferências por Trump são inversamente correlacionadas com o capital social, ou seja, com a densidade de associações cívicas, religiosas e esportivas, bem como com medidas de confiança generalizada, indicando que movimentos populistas parecem prosperar em locais onde houve desintegração de laços sociais em décadas recentes.

É provável que indivíduos com fortes vínculos e conexões sociais tendam a encontrar mais facilidade e ajuda para enfrentar mudanças econômicas resultantes da globalização, do progresso tecnológico e da imigração. As conexões sociais podem ajudar também na requalificação profissional de quem perde emprego, por exemplo. Já uma pessoa desempregada com fracos laços sociais tende a ser mais suscetível aos apelos dos populistas de plantão, que culpam os imigrantes, a globalização, a tecnologia, ou ainda as elites pelos seus sofrimentos, abrindo as portas para outsiders que se vendam como os verdadeiros representantes “do povo”. Um importante alerta vem da observação de que a eleição de uma figura como Trump não foi um mero acidente, é fruto de um processo que vem sendo gestado há tempos na sociedade norte-americana.

Cristina Pinottié graduada em administração pública pela EAESP-FGV e cursou o doutorado em economia na FEA-USP. É sócia da A.C. Pastore & Associados desde 1993. Antes trabalhou nos departamentos econômicos do BIB-Unibanco, Divesp e MB Associados. Concentra seus trabalhos na análise da macroeconomia brasileira, com ênfase em temas da política monetária, relações do país com a economia internacional, e planos de estabilização. Nos últimos anos tem se dedicado ao estudo da teoria da corrupção e da história da operação Mãos Limpas, na Itália. É autora de diversos artigos e livros. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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