Coluna

Lilia Schwarcz

Maternidade e escravidão: quando a realidade vira ficção

21 de setembro de 2020

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Em seu conto ‘Pai contra mãe’, Machado de Assis se inspira em histórias comuns ao período da escravatura para ironizar os dilemas morais que persistiam em sua época

Em 1906, Machado de Assis publicou o conto “Pai contra mãe”, que foi incluído em seu livro “Relíquias de casa velha . Já haviam se passado 18 anos do fim da escravidão, e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade criara e que talvez não tivessem desaparecido no contexto do pós-abolicionismo, que continuou a manter estruturas de exclusão social, herdadas e aprimoradas já nos tempos da República.

“Pai contra mãe” é ambientado no Rio de Janeiro, no contexto do Segundo Reinado, por um narrador onisciente, que relata um acontecimento passado com um tom ao mesmo tempo melancólico e irônico. Assim, revela uma faceta inaudita e perversa da dura realidade dos escravizados no Brasil: a dos caçadores de escravos fugidos, em geral homens sem sucesso em outras profissões. O protagonista é Cândido Neves, que está para ser pai, e fracassa nas suas perspectivas profissionais e como provedor de sua família. Clara, que está grávida, vive com sua tia Mônica, que os alerta que não teria recursos para acolhê-los. Por isso, aconselha-os a entregar o bebê do casal, assim que nascesse, à Roda dos Enjeitados — casas de caridade que cuidavam das crianças cujos pais por vários motivos não podiam cuidar de seus filhos.

O drama literário seleciona uma data fictícia da década de 1850 e explora o drama. Para conseguir recursos, Cândido Neves investe na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios que abundavam na imprensa carioca urbana. Seleciona então o caso de Arminda, uma escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido da casa de seus senhores exatamente por estar grávida. Mães cativas tinham muito medo de serem separadas de seus filhos e filhas e, não raro, recorriam à evasão. Já na compreensão do seu algoz, seria mais fácil prender uma mulher em estado adiantado de gestação.

Como se vê, existiam expectativas diversas entre Neves (o futuro pai) e Arminda (a futura mãe). Não quero dar spoiler e contar o final da história. O importante é anotar como muitas vezes a ficção encosta na realidade ou vira a própria realidade.

Não foram poucas as mulheres negras escravizadas que optaram por fugir quando engravidaram, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que sua prole continuasse escravizada ou fosse separada por venda senhorial. Elas também podiam usar a fuga para acionar as redes e as suas comunidades negras na hora do parto e nos momentos iniciais da vida deles.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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