Coluna

Luciana Brito

Nigéria, Brasil, EUA: por que protesta o Atlântico Negro?

26 de outubro de 2020

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A violência policial contra os povos da diáspora revela o projeto transnacional de extermínio da juventude negra e como o colonialismo controla os corpos dos sobreviventes

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020 , a polícia brasileira nunca matou tanto quanto em 2019. Desses mortos, quase 80% (quase mesmo, 79,1%) são pessoas negras. A maioria é jovem — 50% têm até 29 anos — e mais de 70% foram abatidos com disparos de armas de fogo. Mas não foram só os civis negros jovens que foram assassinados pela violência do Estado brasileiro. Do outro lado das barricadas, são também negros a maioria dos policiais mortos, mais de 65%. Ainda sobre a atuação policial no anuário, os dados demonstram que o número de mortes decorrentes da intervenção policial cresceu , acompanhando a tendência de um país que se torna cada vez mais violento. Na Bahia, as mortes causadas por policiais aumentaram em 41,8%. Em Sergipe, o número de casos foi 80% maior e, em São Paulo, 20%. Confirmando informações que nos levam a crer que os policiais ao mesmo tempo que matam também morrem, o anuário também nos revela outros dois dados alarmantes: a maioria dos assassinatos de policiais acontece nas horas de folga, e os agentes morrem mais por suicídio do que “em combate”.

Dados como esse, no Brasil, chocam quase ninguém. No dia seguinte à publicação do relatório, as autoridades brasileiras não foram à público para se comprometerem com o fim do genocídio da população negra. Daqui, o que escutamos foi a fala de uma mãe dilacerada pela morte do filho policial (um jovem negro), que, em matéria exibida em grande emissora de TV, afirmou que, para ela, “bandido bom é bandido morto”, frase (e ideia) que retroalimenta ainda mais a máquina de moer gente negra que acabou levando seu próprio filho.

A despeito dos “ouvidos moucos” das autoridades brasileiras, e de essa questão fundamental não ser pauta nos debates que antecedem as eleições, o medo de ser abatida ou abatido pela polícia é algo que atravessa as pessoas negras em toda a diáspora. Salvador, São Paulo, Alagoas, Rio de Janeiro, Ferguson, Nova York, Chicago, Ohio, Flórida, Carolinas do Norte e Sul, Londres, Haiti, República Dominicana, Paris — quem “circula por aí” sabe muito bem que não há lugar seguro.

Os recentes episódios em curso na Nigéria nos revelam a força do colonialismo e o quão comprometido ele está com seu projeto transnacional de exterminar a juventude negra e de, ao mesmo tempo, controlar os corpos dos/das sobreviventes com uma retórica e uma prática de “ordem”, que na verdade só espalha medo e terror.

Desde o início do mês de outubro, a juventude nigeriana vem tomando as ruas das metrópoles do país mais populoso do continente africano para protestar contra a Sars (Esquadrão Especial Anti-roubo, na sigla em inglês), iniciando uma campanha internacional com a hashtag #EndSars. A Sars é uma força policial criada pelo governo federal que vem recebendo sérias acusações de suborno, prisões ilegais, assassinatos e torturas , digiridas principalmente contra jovens negros, que são perseguidos por andarem na rua à noite a partir de determinado horário ou até mesmo por usarem dreadlocks (quão familiar hein, vamos combinar?). Ainda sobre as torturas cometidas pela Sars, vale enfatizar que jovens e meninos pobres são suas principais vítimas. Entre as várias técnicas de tortura empregadas, vale destacar a “tabay” , que consiste em amarrar as pernas e braços de alguém com uma corda. A vítima é muitas vezes pendurada em um pedaço de madeira enquanto é espancada. A pessoa também pode ser arrastada amarrada dessa forma. Os corpos de muitos dos jovens que não resistiram a tais castigos estão desaparecidos. Vale lembrar que cerca de 60% da população da Nigéria é jovem , tem menos de 24 anos, ou seja, a maioria da população do país é uma potencial vítima da Sars.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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