Coluna

Marta Arretche

A punição do eleitorado de fato funciona?

22 de outubro de 2020

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Não há evidências de que Bolsonaro tenha se convertido ao credo democrático. O presidente foi apenas derrotado pelos demais poderes da República

A crença de que os eleitores punem o mau governo e recompensam seu sucesso está entre os maiores alicerces da teoria democrática. Nela, os eleitores se manifestariam por meio do voto retrospectivo: ao fazerem suas escolhas eleitorais, os cidadãos projetam o que seria seu futuro sob um dado governo, olhando para o que foi feito no passado. O mecanismo não requer que os eleitores sejam bem informados sobre o funcionamento do mandato. Tampouco requer que os próprios governantes tenham convicções democráticas. É suficiente que saibam que, havendo competição política, sua sobrevivência depende da aprovação dos eleitores, o que criaria incentivos para que fossem responsivos ao bem-estar dos cidadãos.

Parte do desconforto contemporâneo com a democracia decorre da percepção de que esse mecanismo nem sempre funciona. Vejamos, por exemplo, a trajetória do governo Bolsonaro no ano da (des)graça de 2020.

Do ponto de vista sanitário, não há dúvida de que o presidente errou ao politizar o combate à covid-19. Nunca saberemos quantas vidas poderiam ter sido salvas se o Ministério da Saúde tivesse, de fato, coordenado as ações nacionais.

Mais grave do que a falta de coordenação, contudo, foi — e tem sido — sua estratégia de usar os recursos institucionais da Presidência para promover uma alternativa à recomendada pela comunidade científica.

De fato, assistimos a uma disputa entre duas estratégias de combate à covid-19, que assumiu o formato institucional de confronto entre autoridades da federação.

Marta Arretcheé professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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