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Luciana Brito

Coronavírus e a mão da limpeza: quem suja na entrada e quem limpa na saída

16 de março de 2020

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Penso em qual será o efeito da pandemia em quem não pode se dar ao luxo de passar os dias dentro de casa, trabalhando pela internet

Desde que começaram as notícias sobre o alto grau de proliferação e contaminação do coronavírus, algumas coisas me chamaram muito a atenção. Antes de mais nada, quero lembrar que não sou epidemiologista e sim historiadora, intelectual e cidadã. Portanto, minhas opiniões são a partir daquilo que observo sobre o movimento da sociedade. Como pessoa que faz parte do coletivo social, faço o que recomendam especialistas: lavar as mãos, evitar aglomerações – enfim, as medidas de saúde que a esta altura já estão amplamente divulgadas.

Eu estava nos Estados Unidos há quase 10 dias e fiquei abismada com o despreparo da maior potência mundial para enfrentar a doença. O presidente daquele país, tido como modelo do brasileiro, negava a gravidade do vírus, afirmando que ele seria como um gripe comum, tratada com ingestão de bastante água e sem a necessidade de isolamento e repouso. Cada vez mais a ferida da ausência do serviço público de saúde voltava ao centro dos debates. Segundo especialistas, o maior desafio dos EUA hoje é a oferta de testes para diagnosticar o vírus atendendo à demanda de casos suspeitos, que dobram de cada 5 a 7 dias. Os testes deveriam ser ofertados numa quantidade de centenas a mais do que estão sendo feitos hoje nos Estados Unidos, e só recentemente laboratórios de universidades obtiveram autorização do governo federal para produzir e oferecer os testes que diagnosticam o vírus, que já vinham investigando nos seus centros de pesquisa desde janeiro, como no caso da Universidade de Harvard , por exemplo.

Somente após detectadas diversas falhas nos testes produzidos pelo CDC (sigla em inglês para Centro Federal de Controle de Doenças), é que as universidades puderam colocar em prática aquilo que já estavam pesquisando há meses, pelo menos. Entre os impérios econômicos, os EUA é o país mais atrasado no oferta de testes feitos, ou seja, tem muita gente que está infectada com o vírus e não sabe disso, proliferando assim a doença. O exemplo dos EUA nos lembra sobre a importância do serviço público de saúde e o papel das universidades e dos centros de pesquisa, também públicos, funcionando enquanto instituições autônomas.

Após as pressões feitas pelo presidente Donald Trump aos cientistas estadunidenses para que descobrissem logo uma vacina para a covid-19, dizendo a eles “hurry up!”, acabo de ler um artigo em resposta muito pertinente, lembrando que ciência não se faz de noite para o dia, sem recursos. Viu aí? Recorrem agora às pesquisas científicas aqueles que acreditam que aquecimento climático não existe, que a Terra é plana e que os vírus são criações mentirosas de pessoas mal-intencionadas que querem derrubar líderes poderosos… a mesma reflexão vale para o Brasil, não é verdade?

Outra coisa que me chama muito a atenção nesse debate todo sobre o coronavírus é sobre nossos hábitos de higiene. Ainda nos Estados Unidos, descobrimos recentemente que parte considerável da população branca , somente agora, está preocupada em adotar hábitos aparentemente básicos, como não sentar no vaso sanitário de espaços públicos ou usar papel higiênico.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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