Coluna

Luciana Brito

Para que serve o movimento negro brasileiro?

17 de agosto de 2020

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Episódios recentes de racismo estrutural — e de resistência contra ele — demonstram a importância e os resultados de anos de organização coletiva

Finalmente está de volta sob a guarda da mãe a jovem menina Yawo (iniciada na religião do candomblé), que foi vítima de racismo religioso. O fato ocorrido na cidade de Araçatuda, interior de São Paulo, foi um de muitos casos do que chamamos de racismo estrutural na semana. O Conselho Tutelar da cidade recebeu falsas denúncias de maus-tratos e até mesmo abuso sexual, supostamente sofridas no terreiro de candomblé. A avó da menina, aparentemente evangélica, foi quem prestou queixa na polícia contra a mãe. Os policiais invadiram o terreiro e tiraram do runcó, quarto sagrado, a menina recém iniciada. Também foi estranhamente rápida a ação do juiz que tirou da mãe a guarda da filha, que agora tem o ori (cabeça) entregue à grande mãe Yemanjá.

A menina afirmou o tempo todo diante da Justiça a sua vontade e consentimento nos rituais, e as denúncias tiveram a falsidade confirmada. Ainda assim, a garota teve que passar 17 dias sob a guarda de uma avó intolerante que, segundo ela, constantemente tentava convencê-la de abandonar a religião na qual havia acabado de se iniciar. Felizmente, a jovem está em casa ao lado da sua mãe, podendo assim dar prosseguimento a sua nova vida, duplamente nova, renascida. A todo momento chamou-me atenção a ação do Conselho Tutelar, dos policiais que invadiram o terreiro e do juiz que decidiu por tirar a guarda da menina da sua mãe.

Não fosse o amplo debate pautado pelo movimento negro brasileiro, que ensinou à sociedade brasileira que esses são atos de intolerância religiosa ou racismo religioso, nem ficaríamos sabendo de casos como esse. A mãe da menina chamou de intolerância a motivação para a ação violenta que lhe custou a guarda da filha. Um detalhe: a mãe da criança é uma mulher branca. A racismo reside aqui na demonização de práticas de matriz africana, hoje ainda perseguidas por fundamentalistas brasileiros.

A minha infância foi entre a cidade de Salvador e o Recôncavo Baiano. Na década de 1980, a religião de matriz africana estava por todos os lados. Estava na pipoca que todas as crianças da rua iam comer às segundas-feiras na casa da minha melhor amiga e que eram ofertadas pelo seu pai. Hoje sei que certamente ele era um devoto ou filho de Obaluaê. O candomblé estava presente também na benção que pedíamos, mesmo sem saber por que, a um senhor negro de pele escura, que às sextas-feiras caminhava elegante pela rua da minha avó materna. Ele descia a ladeira de paletó e chapéu, um traje alvíssimo, todo de cor branca. Pedíamos “a benção a vovô” e ele nos abençoava sorridente: certamente ele era um elegante filho de Oxalá. Agosto era mês de ver os filhos e filhas de Omolu carregarem o tabuleiro coberto de palha pedindo esmolas para o Olubajé. Pegávamos as moedinhas todas que tínhamos e as doávamos em troca de pipoca. Recebíamos banho de “flores” e depois a benção: “O velho que te livre das chagas, que te dê saúde”. E voltávamos saltitantes para a brincadeira, cheias de pipocas enroladas nos nossos cabelos encarapinhados.

Naquela época, fazer o santo era quase um segredo, pois ser adepto ao candomblé era quase um tabu. Ser chamada de “macumbeira” era algo devastador. Portanto, a maioria das pessoas da religião cumpria suas obrigações em segredo. Era preciso muita coragem para publicamente se assumir candomblecista ou seguidor da umbanda.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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