Coluna

Marta Arretche

A mutação de Bolsonaro e sua sobrevivência política

11 de março de 2021

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A estratégia de transferência de responsabilização do presidente e seu expansionismo lhe renderam fôlego em 2020. Agora, a eficácia desse plano vem sendo desmentida pelos fatos

Deixemos de lado as declarações chocantes e os excessos de vulgaridade que causam indignação e dificultam a interpretação dos fatos. Espetáculo à parte, a resposta de Bolsonaro à covid-19 em 2020 pode ser interpretada como internamente consistente e até mesmo exitosa (até aqui), se examinada pelo ângulo dos índices de popularidade, prioridade das prioridades para o presidente.

A resposta continha uma narrativa, uma estratégia de transferência de responsabilização e medidas econômicas. Seu principal desafio para 2021, contudo, são os fatos.

Bolsonaro pautou sua resposta à pandemia pela narrativa de que sua gravidade era um exagero da oposição. Daí a afirmação de que se tratava apenas de uma gripezinha. As medidas de isolamento social seriam antes de mais nada uma estratégia da esquerda para paralisar a economia e inviabilizar seu governo. A manipulação — para cima — dos dados de contaminação e morte resultaria de uma aliança entre cientistas e imprensa, em estreita colaboração com as agências multilaterais. A pandemia, enfim, seria fruto de uma conspiração global para impedir que as pessoas trabalhassem. A queda na atividade econômica não seria, portanto, resultado de suas políticas de governo, mas da “fraudemia”. Isolamento vertical (apenas os grupos de risco permanecem em casa), cloroquina e ivermectina seriam suficientes para preservar a atividade econômica e a saúde (descontadas, é claro, as mortes inevitáveis!).

Desta narrativa decorreu a edição da medida provisória, ainda em março de 2020, que conferia ao governo federal autoridade exclusiva para adotar as medidas relativas a transporte de bens, movimentação de pessoas e manutenção de serviços. Bolsonaro pretendia impedir seus inimigos de paralisar a “sua” atividade econômica, um trunfo necessário para suas pretensões reeleitorais.

O Supremo Tribunal Federal , por unanimidade, autorizou governadores e prefeitos a tomarem medidas locais de controle da pandemia. A decisão fortaleceu a narrativa da conspiração, mas sobretudo lhe ofereceu oportunidade para uma estratégia de transferência de responsabilização. Dali em diante, governadores e prefeitos passariam a responder politicamente pela crise econômica e pelo enfrentamento da pandemia. Suas investidas contra os governadores foram menos expressão de qualquer conflito federativo e mais uma estratégia de encontrar culpados para um problema cuja extensão e gravidade poderia acarretar massiva punição eleitoral. Os fracassos no combate à pandemia deveriam ser debitados à ação orquestrada entre o STF e os governadores da oposição.

Marta Arretcheé professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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