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Alicia Kowaltowski

Ciclos fúteis que causam mortes

24 de março de 2021

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Ninguém possui mais habilidade de drenar energias que o presidente, sua equipe e milícia de seguidores. Enquanto desmentimos suas inverdades, deixamos de focar em salvar vidas. O resultado é gritante: 300 mil mortes

Na semana passada, a comunidade científica comemorou a notícia de que o Congresso Nacional havia derrubado um dos vetos criados pelo presidente Jair Bolsonaro a uma lei protegendo o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), a principal fonte de financiamento federal para a ciência e tecnologia. Em 2020, reconhecendo a importância central da área, o Congresso criou uma lei complementar que proibia que recursos deste fundo fossem contingenciados para pagamento de dívida pública, como vinha acontecendo há vários anos, diminuindo drasticamente o financiamento científico a nível federal. Em janeiro, o presidente evidentemente anticientífico criou vetos que comprometiam o intuito central da lei. Após ampla mobilização das sociedades científicas e interlocução com o Congresso, houve a derrubada do principal problema criado pelos vetos, restabelecendo verbas fundamentais para pesquisa no Brasil.

É uma grande vitória para a comunidade científica ter reconhecimento da importância de suas atividades por ampla maioria na Câmara e Senado. Mas é preciso reconhecer que a vitória foi um retorno parcial ao que tínhamos no final de 2020, sendo que ainda há algumas arestas legais a acertar para termos a totalidade dos recursos do FNDCT efetivamente fomentando a ciência nacional. Houve imensa mobilização e gasto de energia necessários para que não perdêssemos mais em decorrência dos vetos presidenciais. Investimos para manter o status quo, no que é, por definição, um ciclo fútil.

Em biologia, ciclos fúteis não existem, pois atividades que gastam energia sem gerar nenhum resultado biológico produtivo são eliminadas pela evolução. Como exemplo, as células do nosso fígado são fantasticamente flexíveis, capazes de realizar quase todas as reações metabólicas existentes, incluindo tanto produzir quanto degradar glicose, um açúcar. No entanto, embora a glicose possa ser produzida (com investimento de energia) e degradada (com produção de energia) por essas células, os dois processos nunca acontecem ao mesmo tempo, pois isso constituiria um ciclo fútil. Em vez disso, quando acabamos de comer e temos muita glicose no sangue, a insulina é produzida, e leva as células do fígado a degradar essa glicose e gerar outras moléculas (como gorduras) a partir desse açúcar. Quando estamos em jejum e temos pouca glicose no sangue, outro hormônio, o glucagon, faz com que as células do fígado façam exatamente o contrário: sintetizem glicose e aumentem a concentração desta no sangue, de onde outras células podem usá-la como fonte de energia. Insulina e glucagon não estão presentes ao mesmo tempo, e, portanto, o fígado não produz e degrada glicose simultaneamente — isso seria um ciclo fútil.

A inexistência de ciclos verdadeiramente fúteis, em que ocorrem reações sem formação de produtos ou ações de utilidade biológica (nem mesmo do calor liberado, que pode ser útil), tem motivo na biologia. Organismos vivos estão em constante batalha contra as propriedades termodinâmicas do universo, que ditam que moléculas grandes tendem a se degradar espontaneamente em moléculas menores, e que tudo que é organizado tende a se desorganizar. Como organismos vivos são imensamente organizados e compostos por moléculas grandes, eles estão constantemente se degradando e precisam recompor seus tecidos continuamente , com investimento de energia química. É para isso que um ser humano médio consome cerca de uma tonelada de alimentos e bebidas todos os anos: está tirando energia química da sua comida para recompor e organizar moléculas, e se manter vivo. Em consequência, toda causa de morte em última instância é uma falência energética . Há inabilidade de um grupo de células de obter energia e se manter viável, e as leis da termodinâmica ganham, promovendo degradação e desorganização, destruindo-as. Em biologia, ciclos fúteis, ao promover gasto de energia química sem nenhuma utilidade, são um mecanismo que drena o organismo de suas funções vitais e leva à morte.

Ninguém possui mais habilidade de criar ciclos fúteis, drenando energias, que o presidente Bolsonaro, sua equipe e milícia de seguidores. Falam que isolamento e máscaras não funcionam, falam em supostos tratamentos comprovadamente inúteis como cloroquina, ivermectina e sei lá que vitamina — que vão resolver tudo, falam que vacinas são perigosas ou que o vírus foi criado pela China para vendê-las. Enviam comissões para Israel para propagandear um spray nasal com eficácia não testada, e causam vergonha internacional ao ouvir do próprio criador do spray que o que funciona para a pandemia é comprar vacinas. Este pesquisador israelense faz coro com cientistas, divulgadores científicos, profissionais de saúde e jornalistas brasileiros, reforçando continuamente a tríade necessária para sairmos da pandemia: distanciamento entre pessoas, uso de máscaras, aquisição e distribuição de vacinas. Gastamos uma energia imensa desmentindo as inverdades presidenciais para tentar manter o status quo, nunca conseguimos desmentir todas para todo mundo, e deixamos de focar atenção em salvar vidas. O resultado é gritante: 300 mil brasileiros mortos.

Vírus não são organismos vivos. Precisam de nossas células, e nossa energia química, para se reproduzir e propagar. Se seres humanos não se encontrarem fisicamente e não trocarem o ar em que o vírus se encontra, ele sucumbirá às leis da termodinâmica e se degradará, deixando de existir. Ao promover aglomerações, rechaçar o uso de máscaras, atacar e atrasar a compra de vacinas, o presidente Bolsonaro iniciou ciclos fúteis que drenaram as energias do Brasil e causaram doença e morte. É, sem dúvidas, um genocida.

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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